Quando eu era menino, lá pelos idos da década de
70, o mundo não precisava de explicação. Ele simplesmente era. Aquilo que nos
cercava compunha o roteiro, o enredo, o texto e o cenário da vida. Nada estava solto.
Tudo fazia sentido dentro do próprio sentido de existir. A casa, a rua, o tempo
— eram personagens de uma mesma história sendo escrita devagar.
O filtro de barro repousava num canto, silencioso
e fiel, ensinando que a água precisava descansar para ficar boa. As redes
armadas nas salas e varandas embalavam conversas, cochilos e confidências. As
janelas basculantes deixavam o vento entrar com educação, sem pressa, trazendo
o cheiro da tarde. O fogão a lenha não era apenas um utensílio: era um coração
aceso, aquecendo a comida, as mãos e as histórias.
Os ladrilhos artesanais desenhavam o chão como quadros sob os pés, simples e bonitos, sem pressa de impressionar. Cortinas de tecido — às vezes de plástico, às vezes de pano gasto — dividiam os cômodos não para separar, mas para criar um certo aconchego.
Havia o quarto de costura, onde o tempo andava devagar. Ali, tudo acontecia no
ritmo da agulha, ponto por ponto, como se as horas soubessem esperar. E o piso
de taco rangia baixo, como quem comenta a passagem da vida sem querer
interromper. Hoje, tudo isso ainda existe — não como antes, não com a mesma
frequência. Resiste aqui e ali, preservado em algum canto, quase como quem se
esconde do tempo. Existe, mas de outro jeito. Sobrevive na nostalgia de quem
gostou, de quem teve cuidado, de quem se recusou a deixar desaparecer.
Rádio, radiola, vitrola, toca-discos, toca-fitas.
LP, compacto, K7… a música tinha corpo, peso, ritual. Era preciso escolher,
girar, limpar, apertar o botão certo. A canção não chegava correndo — ela era
esperada. E quando chegava, ficava. Criava lembranças, marcava tardes, embalava
silêncios. OM, AM… depois, tempos mais tarde, o FM surgindo como novidade,
quase moderno demais para ouvidos acostumados ao chiado que também fazia parte
da música. As vozes vinham de longe, atravessavam cidades, noites e
imaginações. E havia a pilha Rayovac — pequena guardiã da festa. Sem ela, o som
se calava. Com ela, o mundo se abria. Tão simples… e tão essencial. Hoje tudo é
imediato, invisível, sem toque. Naquele tempo, a música morava nas mãos, no
ouvido e na memória. E talvez por isso soe até hoje, mesmo quando o rádio já se
calou.
O que era natural virou raridade. O simples
passou a carregar o rótulo de antigo. Aquilo que fazia parte do dia a dia, sem
anúncio e sem valor aparente, transformou-se em lembrança. O que antes era
presença, hoje é memória — e, às vezes, apenas saudade. O tempo não apenas
passou — ele apagou. Ou talvez tenha arrancado com certa brutalidade. Demoliu
casas, transformou histórias em entulho, afetos em sucata de demolição. E o que
veio depois, eficiente e luminoso, é muitas vezes artificial. Digital. Tão
rápido que mal se vê. E quando se vê, já bate a saudade.
Como alguém vai lembrar daquilo que nunca viu?
Como sentir falta do que não foi vivido? A memória precisa de experiência para
criar raízes. Sem vivência, não há saudade — apenas curiosidade. Talvez por
isso nós, que vimos, carreguemos esse passado tão presente. Ele mora em nós.
Não como um museu, mas como um cheiro, um som, um rangido no assoalho da alma.
Um tempo em que as coisas tinham peso, textura e silêncio. Um tempo que não
volta, mas insiste em nos visitar — sempre que a vida resolve diminuir o passo
e nos permitir lembrar.

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