Havia um verde — e como havia. Um verde que fazia jus ao nome da cidade, que parecia brotar do chão e se derramar pelas laterais da rua, onde as mongubeiras espreguiçavam seus galhos como quem abraça o entardecer. À noite, o perfume delas vinha macio, entrando pela esquina sem pedir licença, ocupando o ar como lembrança boa que insiste em ficar. O cheiro envolvia tudo: a rua, a gente, e até aquilo que a gente não sabia que carregava por dentro.

Do outro lado da rua morava alguém. Morava… porque agora não mora mais. A casa se foi, virou silêncio concreto. Onde antes havia um quintal grande — daqueles que acolhem passos, risos e distrações — levantaram muro, fecharam tudo, reduziram a vida ao tamanho de um lote. Antes, o espaço respirava; agora, prende o ar.

E no quintal antigo… ah, ali moravam outros tipos de moradores. O passarinho que pousava na goiabeira, que beliscava jabuticaba, que descansava no tronco da mangueira. Três árvores, três mundos. Uma a uma, foram ao chão. E o passarinho? Esse não “ave” mais — voou para algum lugar onde o verde ainda conversa com o vento.

Cheiro de romã, gosto de hortelã… memória que chega como quem abre a porta sem bater. Lembro de atravessar aquele quintal com a desculpa mais antiga do mundo: vim pegar fruta…, mas era para ver tua irmã. Porque certas frutas a gente colhe com a mão, mas certas lembranças, só o coração alcança.

As ruas arborizadas tinham um encanto que a gente sentia antes mesmo de perceber — um prazer afável de ver e de respirar. A monguba, que um dia sombreou nossos passos, hoje vive só na lembrança, como quem acena de longe para um tempo que não volta. A arvore que um dia esteve ali, já não aparece mais.




Mesa farta, dessas que acolhem gente e histórias. Café coado na hora, passado devagar, como quem respeita o tempo das coisas simples. O pó, torrado e moído ali mesmo no moinho preso à parede — barulhinho de infância — subia em aroma forte, tomando a cozinha inteira. Entrava pelas narinas como velho conhecido, desses que a gente abraça sem perceber. Era quase um anúncio silencioso: o dia começou… vem viver.

Na jarra de plástico laranja, o ki-suco aguardava — vibrante, simples, essa alegria barata que nem precisa de motivo. Sobre a mesa, a rosca do armazém de alguém — porque no interior sempre existe um alguém, uma história, um jeito. Ela chegava com sua doçura tímida, chamando pra quebrar um pedacinho com a mão, dividir, passar o dedo no açúcar da cobertura e rir de boca cheia. E, ainda assim, era tudo. Porque naquela mesa cabia mais que comida: cabia tempo. Cabiam memórias que ainda hoje perfumam as manhãs da lembrança.

Os cafés pareciam tímidos, quase medrosos: nunca vinham sós, chegavam sempre acompanhados. Havia fartura — uma fartura hoje quase esquecida — que agora faz falta. O que antes transbordava na mesa e aquecia as conversas virou silêncio: um eco suave na xícara vazia, na conta enxuta, na cadeira que sente falta de alguém. Café expresso, café com pressa… e a saudade ficando.