Nasci
no universo da marcenaria — um mundo em que a madeira deixa de ser simples
matéria-prima para se transformar em obra de arte. Desde que me entendo por
gente, esse cenário de tábuas empilhadas, máquinas barulhentas e ferramentas
gastas sempre esteve presente no meu cotidiano. O cheiro da serragem misturado
ao verniz não apenas invadiu minhas narinas: ajudou a moldar minhas primeiras
lembranças, como se aquele aroma fosse também uma linguagem — algo
inesquecível, que não se apaga da memória, algo duradouro no tempo. Falando em
madeira e marcenaria, um nome sempre surgia: Antônio Menezes. Lá nos idos da
década de 70, em Rio Verde, ele era referência no ofício — sinônimo de trabalho
bem feito, técnica apurada e respeito à madeira.
Seu
Antônio está prestes a completar 94 anos. Nasceu em 6 de julho de 1932 e, há
mais de 70 anos, é casado com Dona Enedina. Juntos, construíram uma família
numerosa: são pais de sete filhos — Antônio Carlos, Edson, José Carlos, Saulo, Demilson,
Cidelcina e Fátima. Conversar com ele é um privilégio para quem aprecia ouvir —
e também contar — boas histórias. Quem chegou a Rio Verde apenas nos últimos
anos talvez não saiba, mas Seu Antônio é parte da memória viva da cidade, como
páginas ainda abertas de um tempo que insiste em não se apagar. Ele está ali,
no mesmo lugar, desde o início da década de 1950. Mora no mesmo endereço até
hoje, na atual Avenida Presidente Vargas — e, quando ali chegou, o presidente do
Brasil era Getúlio Vargas. Naquele tempo, a “avenida” não passava de um caminho
de carro de bois; os próprios animais transitavam livremente e, em muitos
trechos, havia apenas pasto — nem cascalho existia. Aos poucos, vieram as
marcas e as mudanças do tempo. Depois, a rua passaria a se chamar Avenida
Goiás, acompanhando, passo a passo, as transformações de uma cidade que cresceu
diante de seus olhos.
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Rio
Verde década de 50 |
Meu pai, como já contei, também foi marceneiro. Aos 17 anos, partiu para São Paulo em busca de trabalho e aprendizado, encontrando no ofício a base que moldaria sua vida. Foi na capital paulista que, com o marceneiro Alfredinho, aprendeu a verdadeira “arte da madeira”, entendendo que ali não havia apenas técnica, mas também sensibilidade e paciência.
Em
1970, retornou a Rio Verde e, logo ao chegar, passou a trabalhar na marcenaria
de Antônio Menezes. Atuava como torneiro, com mãos hábeis para desbastar a
madeira — quase como quem dialoga com ela. Dominava com precisão as goivas
rasas, de corte e de desbaste, assim como os formões chanfrados, retos ou
oblíquos, instrumentos com os quais imprimia forma, detalhe e vida às peças. Da
infância, guardo lembranças vivas desse tempo: ele torneando garrafas de
bálsamo para vender na exposição agropecuária. Ainda hoje me vem à memória o
cheiro da madeira, impregnado no ar e na lembrança.
Seu
Antônio aprendeu o ofício com profissionais vindos de São Paulo e foi um dos
pioneiros na implantação da marcenaria em Rio Verde. A oficina, localizada na
Avenida Presidente Vargas, tornou-se um verdadeiro celeiro de talentos, por
cujos corredores passaram inúmeros aprendizes e profissionais. Em seu auge,
chegou a reunir até 16 marceneiros trabalhando simultaneamente. Havia muito
serviço, muitas encomendas e intenso movimento. A marcenaria realizou trabalhos
para importantes instituições da cidade, como as agências do Banco do Brasil —
hoje INSS, à época ainda INPS — e o Hospital Evangélico. O sustento e o
progresso vieram do trabalho árduo e da dedicação diária. As peças produzidas
ali não abasteceram apenas Rio Verde, mas alcançaram a região e até outros
estados, levando consigo a assinatura silenciosa e duradoura do fazer
artesanal.
Esse
universo sempre esteve presente dentro de casa: os nomes das madeiras, das
ferramentas e, claro, das pessoas do ofício. Lembro-me de alguns que passaram
pela marcenaria de seu Antônio — Afonso, Edivaldo, Osmar, Pereira, Bertoldo…,
Mas, naquele mundo, o apelido era o que realmente ficava. Havia o “Margoso”, o
“Azedo”, o “Doce” o “Boi”, o “Piolho”, “Tiririca”. Osmar ganhou
do meu pai o apelido de “Mazzaropi”, pela semelhança com o ator Amácio
Mazzaropi. Tinha também o Pedrão, que na verdade se chamava Aguinaldo, um
verdadeiro artista da madeira, entre tantos outros. E, claro, meu saudoso pai,
Jairon.
Seu
Antônio conta ainda que o amigo Sarico levava mercadorias para os lados do Mato
Grosso e, na volta, trazia toras de madeira maciça, geralmente de mogno —
embora outras espécies também aparecessem. O mogno, porém, era o principal. Ele
chegou a manter um local próprio para armazenar essas toras, que depois eram
levadas à serraria do Lindauro, onde eram desfiadas e transformadas em
pranchas, prontas para ganhar forma nas mãos dos marceneiros.
Era
a época da marcenaria em madeira nobre. Nada de móveis retos e caixotes, ou
feitos às pressas. Era o tempo dos móveis coloniais: torneados, entalhados,
verdadeiras obras de arte. Peças que ainda hoje ocupam salas e varandas de
muitas casas, resistindo ao tempo, pois esse tipo de obra é feito para durar. Móveis
envernizados, lustrados, nascidos de um mundo quase mágico, onde a madeira se
transformava pelas mãos do homem em algo que atravessa gerações.
A
casa do primogênito de Seu Antônio, Antônio Carlos, é um verdadeiro santuário
da arte em madeira. Ali, o tempo parece repousar entre ferramentas antigas e
peças esculpidas com paciência e saber. Ele mantém viva a tradição, trabalhando
a madeira de forma rústica, com a sensibilidade de quem transforma matéria
bruta em expressão. Cada objeto carrega história, cada instrumento guarda
memória — um patrimônio silencioso de arte, cultura e identidade.
Com
o que conquistou na marcenaria, Seu Antônio passou a investir em outros
empreendimentos. Na Avenida Presidente Vargas, chegou a ser proprietário de
doze imóveis. O terreno onde hoje está instalado o Hotel Honorato, por exemplo,
era de sua propriedade; ali, seu irmão Jaime Menezes, em parceria com Alaor
Caetano, construiu o prédio que mais tarde se transformaria no hotel. Além
disso, adquiriu terras no Capão da Mandioca, na Água Mansa e na Boa Vista, em
uma época em que a terra ainda tinha valores acessíveis, bem diferentes dos
preços praticados hoje. Era um outro tempo: cultivava-se arroz, criava-se gado,
e o desenvolvimento da região ainda dava seus primeiros passos.
Comprando
e vendendo, negócio após negócio, avançou aos poucos — um pedaço aqui, outro
ali. Na região da Boa Vista, começou com 45 alqueires e, em aquisições
sucessivas de cinco, dez alqueires, às vezes um pouco mais, foi ampliando a
propriedade até alcançar 120. Ao longo desse percurso, reuniu oito escrituras.
Um crescimento paciente, construído com trabalho, tempo e perseverança — como
tudo aquilo que se faz bem, à moda antiga.
Vez
ou outra, ao passar pela Avenida Presidente Vargas, lá está seu Antônio, sentado
à frente, com as cachorrinhas ao lado. Sempre que posso, faço questão de
cumprimentá-lo e trocar, ainda que breves, algumas palavras. É um encontro
simples, quase cotidiano, mas carregado de significado. Um gesto pequeno, que
mantém viva a ligação com um tempo em que o trabalho tinha cheiro de madeira e
o valor das coisas era medido pela dedicação de quem as fazia...
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Comente
Excelente publicação
ResponderExcluirObrigado!!!
ExcluirBoa tarde Fábio .!
ResponderExcluirAqui lendo atentamente cada palavra sua , um escritor e historiador nato , parabéns pelas colocações , parabéns por essa bela homenagem da nossa família, em especial meu pai Antônio Menezes .! Sempre atento a profissão e aos cuidados dos 7 filhos .! Sou o mais novo ( Demilson ) o caçulinha, hoje com 60 anos kkkkk..! Nasci e fui criado dentro da marcenaria . Aprendi muito , foi um tempo de imensa experiência e aprendizado, combinado com felicidade .! Agradeço imensamente por essa homenagem .! 🙏👏👏👏👏
Meu caro e prezado amigo Demilson, contar esta história é um prazer. A sua família sempre foi parte da minha. Desde que me entendo por gente, o nome de vocês já morava na minha casa. Cresci entre tábuas, ferramentas e histórias de marcenaria. Fui, de certo modo, criado dentro dela. Foi ali que aprendi sobre sustento, dignidade e direção. Somos filhos — e irmãos — de artistas da madeira, moldados pelo trabalho, pela paciência e pelo cuidado com cada detalhe; gente que transforma matéria bruta em sentido. Tenho uma alegria sincera em ser amigo da sua família. E guardo um carinho muito especial pelo seu pai — desses que o tempo não apaga, apenas amadurece.
ExcluirObrigada Por nos fazer recordar da nossa infância e da trajetória do meu pai. Homem determinado e pai exemplar nos criou junto com nossa mãe com muito carinho e ensinamentos, os quais levamos para nossa vida , para nossos filhos e agora tentamos passar para nossos netos.
ResponderExcluirEsta história contada por vc trouxe poesia e leveza. Parabéns e Obrigada!!!
Sou a filha do meio, Fátima.
Olá, Fátima. Agradeço muito as suas palavras. Sempre que tenho a oportunidade de encontrar seus irmãos — e, claro, seu pai — acabamos trazendo à tona tantas recordações por meio das conversas. Costumo dizer a eles que faço parte dessa história, pois conheço a família de vocês desde que me entendo por gente. É uma grande satisfação poder chamar de amigos uma família tão maravilhosa.
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