São tempos difíceis para sonhadores. Já sonhei
mais, é verdade. O tempo vai afinando os excessos, aparando asas, pedindo
contas. Cobra maturidade, silencia impulsos, ensina limites. Ainda assim,
alguém disse um dia — como quem acende um farol na neblina — “I have a dream”.
Eu tive. Eu tenho. E sigo acreditando.
Quando morava na cidade grande, sonhava em voltar
à cidade da infância, onde o tempo ainda passava devagar. Não se corria tanto.
Havia mais espera que urgência, mais horizonte que relógio.
Nos meus vinte e poucos anos, atravessava um dos
cruzamentos mais famosos de São Paulo, onde a Ipiranga encontra a São João. Na
Paulista, os faróis abriam, as pessoas avançavam, e eu… sonhava. Já sonhei
mais, é verdade. Sonhei em voltar — e voltei. Mas não encontrei o que havia
deixado. E você, que sonhou em ser grande, hoje caminha apressado demais,
confundindo grandeza com dureza, ambição com arrogância.
Hoje, sonhar virou quase um ato clandestino.
Acontece na rua, entre um semáforo fechado e outro que abre rápido demais,
apesar do barulho, dos excessos, da falta de cuidado que se espalhou pelo
cotidiano.
Um poeta avisou com simplicidade: “Você pode
dizer que sou um sonhador, mas não sou o único.” E isso basta. Saber que não se
sonha sozinho é um consolo raro. Quem sabe, num desses cruzamentos da vida, o
mundo desacelere, respire fundo e aprenda, enfim, a caminhar como um só.

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