Gosto das coisas do passado. Não por desprezo ao
presente, mas por afeto. Sou nostálgico por natureza — talvez por ter nascido
ali, no fim dos anos 60, quando o mundo ainda parecia experimentar cores sem
pedir licença. Vi muita coisa mudar. Vi o tempo trocar de roupa, de tom, de
humor. O planeta girou, e com ele giramos nós, meio sem perceber.
Vieram os anos psicodélicos, a tal Era de Aquário,
cheios de promessas e excessos. Depois os anos 80, barulhentos — mas era um
barulho bom. Música que atravessava paredes e décadas, nacional e
internacional, inesquecível. Tudo era mais vivo. Mais ousado. Mais assumido.
Tenho a lembrança nítida de um mundo colorido. As fachadas das lojas chamavam a
gente pelo nome, os brinquedos tinham alma, as embalagens sorriam para quem
passava. As roupas não tinham medo de existir.
Minha memória, curiosamente, tem olfato. Ainda
sinto cheiros: de loja nova, de plástico recém-aberto, de tecido guardado em
gaveta antiga. Até os carros pareciam mais vivos — se não pela mecânica, ao
menos pelas cores. Vermelhos que eram vermelhos, azuis que não pediam desculpa,
amarelos que gritavam alegria... verde, laranja, bordô...
A moda denuncia bem essa mudança. As roupas de hoje
são práticas, eficientes, silenciosas. Não contam histórias. Antes, contavam.
Sumiu o estilo pin-up, aquele glamour das mulheres dos anos 50 e 60 — elegantes
sem esforço, bonitas sem excesso, sedutoras sem pressa. Os homens também se vestiam
melhor, como quem respeita o próprio espelho. Hoje, isso virou exceção. E,
quando aparece, chama atenção justamente por parecer deslocado no tempo.
E as cores… o que fizemos com elas? Pesquisas dizem
que usamos hoje menos da metade das cores de outras décadas. Até os logotipos
das grandes marcas foram perdendo coragem, trocando tons vivos por paletas
neutras, quase tímidas. Tudo ficou mais sóbrio. Mais correto. Mais cinza.
Talvez seja o mercado. A pressa. A produção em série. Fica mais fácil vender quando tudo se parece. O cinza ganhou espaço enquanto os marrons quentes, os alaranjados, os amarelos ensolarados foram ficando pelo caminho. Como se, aos poucos, o mundo tivesse decidido falar mais baixo… e viver com menos cor. Não sei se era melhor antes. Sei apenas que era mais colorido. E, às vezes, sinto falta desse excesso bonito — desse tempo em que até as coisas pareciam ter mais alma do que função...
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