Final da década de 70. O nosso mundo ainda era pequeno — cabia na rua, na quadra e no quintal de casa. Os anos mágicos, os anos coloridos, estavam prestes a começar. Mas, para nós, eles já tinham começado fazia tempo. Nosso universo era feito de poucas coisas: uma bola, uma dúzia de amigos (às vezes até mais) e uma vontade imensa de brincar. E isso bastava. Um no gol e quatro na linha — estava formado o clássico. Se fôssemos apenas dois, era gol a gol, cada um defendendo seu quadrado imaginário. Se surgisse um terceiro, nascia a famosa “primeirinha”, disputada com a seriedade de uma final de campeonato. Brinquedos eram raros. Criatividade, não. Inventávamos regras, campeonatos, times, narradores e até torcida. Criávamos mundos inteiros com quase nada.

A quadra do TG era o nosso quadrado mágico particular. Entre 1977 e 1980, aquele pedaço de chão de cimento, cercado de sonhos e risadas, foi o centro do meu mundo. De segunda a segunda. Feriado ou fim de semana — pouco importava. Lá estávamos. Só nos arrancavam daquele território sagrado quando os atiradores precisavam da quadra para os exercícios militares. Era uma frustração passageira. Porque, quase sempre, o espaço era nosso. E ali a gente era feliz sem saber que era feliz — ou talvez soubéssemos, lá no fundo, com aquela sabedoria silenciosa que só a infância tem.

Um dia, o Sargento Barbosa resolveu dar forma oficial à nossa pelada. Decidiu montar um time. Foi até a Casa Lacerda e comprou uniforme: cinco camisas azuis, calção, meião e uma camisa diferente para o goleiro. Azul. Daquele azul vivo que ainda hoje mora na memória. Fui um dos escolhidos. E aquilo, para um menino, era como receber uma convocação para a seleção. O time tinha João Alves (Júnior), João Alvares, Cleomar, Wanderlei (Lelei), Jairinho (que na foto não apareceu), Mário, filho do sargento, e eu. Éramos mais que um time. Éramos uma irmandade de tênis — na maioria, Kichutes já gastos — e sonhos intactos.

Jogamos numa noite contra o time do Módulo Esportivo, treinado pelo Wilsinho. A quadra iluminada parecia maior, solene, como se soubesse que aquele não era apenas mais um jogo. Do outro lado, um nome ficou gravado na memória: Roxinho (jogava muito), — desses adversários que a gente nunca esquece. A fotografia daquela noite foi feita pelo amigo Nilson Nascimento, o Nilsinho Fotógrafo, que teve a sensibilidade de eternizar não apenas um time, mas um tempo inteiro. A imagem ficou guardada com o Júnior, que anos depois me presenteou com uma cópia. E assim, sem que percebêssemos, congelamos a infância em um pedaço de papel.

Anos depois, num reencontro, decidimos repetir a foto. Faltaram Lelei e Mário. Mas, de algum jeito, estavam ali. Entre risadas, abraços demorados e olhares marejados, revivemos o instante. Quase cinco décadas haviam se passado. Aqueles meninos de 11 a 14 anos agora ostentavam cabelos grisalhos — e traziam nos olhos e na memória histórias demais para caber em uma única conversa.

A quadra já não é a mesma. Nós também não. Mas, quando fecho os olhos, ainda escuto a bola quicando no cimento, os gritos pedindo passe, a eterna discussão sobre se foi gol ou não. E percebo que aquele mundo simples — feito de bola, amigos e uma quadra quase sempre livre — era pequeno no tamanho, mas imenso o suficiente para durar a vida inteira.