No passado, era comum ouvir um “chirip” cortando o ar. Os pardais estavam por toda parte — tantos que pareciam infinitos. No fim da tarde, faziam festa no céu: uma bagunça bonita, barulhenta, avisando que o dia se despedia devagar. Cresci embalado por esse som — nos terrenos vazios, nas praças, nos quintais. No final dos anos 70, eu morava ao lado da cadeia velha, e ali era o reino deles. Ao amanhecer e no entardecer, a revoada ruidosa parecia ocupar tudo. Era vida espalhada, sem pedir licença, apenas existindo.

Mas o tempo passou, e as cidades mudaram. O barulho dos pássaros virou silêncio. E, nesse silêncio, uma história foi ficando esquecida: a do pardal. O passarinho pequeno, atrevido, que sempre esteve por perto sem cobrar nada. Ele conquistou o mundo porque aprendeu a viver exatamente onde nós vivíamos. Entrou nas brechas, seguiu nossos passos, transformou nossas sobras em casa. Agora está sumindo… porque mudamos rápido demais para que ele conseguisse seguir.

O pardal chegou ao Brasil por volta de 1903, no Rio de Janeiro, trazido por uma ideia típica do início do século: a crença de que a natureza poderia ser administrada como política pública. O prefeito da época acreditava que a ave ajudaria a controlar insetos, sobretudo os mosquitos. Vieram de Portugal, mas logo se percebeu que os pardais não eram caçadores de pragas — viviam de grãos e sementes. Ainda assim, foram soltos na Praça da República e, dali, seguiram seu próprio rumo, espalhando-se pelo país. Adaptaram-se com facilidade às cidades em crescimento, encontrando abrigo nas frestas da madeira, nos telhados antigos, nos cantos onde a imperfeição ainda era permitida. Talvez por isso tenham ficado: aprenderam cedo a conviver com nossas tentativas de controle e com nossos enganos.

Com o tempo, as frestas sumiram. Os telhados mudaram, as paredes ficaram lisas, frias, sem espaço para ninhos. Até o lixo — por décadas sustento de bandos inteiros — foi trancado, higienizado, negado. O pardal, mestre em fazer abrigo do resto, resistiu enquanto pôde. Mas a modernização avançou em silêncio, retirando pouco a pouco o chão invisível que o mantinha aqui. O pardal não desaparece por fraqueza. Desaparece porque perdeu o mundo que o sustentava — um mundo que nós mesmos criamos e, sem perceber, apagamos.

Enquanto isso, no interior — onde o tempo ainda caminha com paciência — o pardal segue presente, embora já não com a mesma abundância. O sumiço dos pardais não fala apenas de um pássaro. Fala de nós. Do que deixamos escapar sem perceber. Das pequenas ausências que, acumuladas, acabam se transformando em grandes vazios. E se você também sentiu falta deles, talvez já tenha compreendido: essa história nunca foi apenas sobre o pardal. É sobre o silêncio que se instala quando o mundo passa a correr mais rápido do que o coração consegue acompanhar.