Sempre gostei de futebol. Na verdade, acho que primeiro aprendi a gostar de bola e só depois descobri que existia Copa do Mundo.

Minha primeira lembrança é de 1978. Eu era um garoto apaixonado por futebol. Jogava até escurecer, colecionava figurinhas, guardava tabelas e até aquelas tampinhas da Coca-Cola que traziam jogadores da Seleção em verde e amarelo. O tempo levou as tampinhas, as figurinhas..., mas não conseguiu apagar as lembranças.

Naquele tempo, Copa do Mundo era quase uma religião. Não existia internet, celular ou redes sociais. Existia conversa na calçada, discussão na padaria, bolão entre amigos e muito radinho de pilha. Todos sabiam a escalação da Seleção, dos adversários e até do juiz da partida.

A Copa de 1978 tinha apenas 16 seleções. Poucas equipes, muitos craques. Meu primeiro jogo foi Brasil 1 x 1 Suécia. Reinaldo marcou para o Brasil. Depois veio um dos maiores absurdos que já vi dentro de um campo. O árbitro encerrou a partida exatamente quando Nelinho cobrava um escanteio. A bola encontrou a cabeça de Zico e entrou. Gol legítimo. Só que o juiz já havia apitado.

Dizem que "se" não existe no futebol. Não existe mesmo. Mas aquele "se" mudou uma Copa inteira. Se aquele gol fosse validado, o Brasil terminaria em primeiro do grupo e talvez só enfrentasse a Argentina apenas na final. Talvez.

Dias depois vencemos a Polônia por 3 a 1. Roberto Dinamite marcou duas vezes. Fizemos nossa parte. Bastava a Argentina não vencer o Peru por quatro gols de diferença. Naquele início de noite fui buscar marmita em um hotel na Rua Gumercindo Ferreira, onde hoje funciona a Clínica Modelo. O assunto era um só... Argentina 6 x 0 Peru.

Até quem nunca tinha visto uma bola desconfiou. Anos depois surgiram investigações, depoimentos, documentos e suspeitas suficientes para alimentar qualquer teoria. Naquele momento restou apenas a revolta. Como prêmio de consolação inventaram um título curioso. "Campeão moral." Confesso que nunca vi ninguém colocar uma moral na estante.

Em 1982 veio, talvez, a maior Seleção Brasileira de todos os tempos. Telê Santana não montou um time. Montou uma obra de arte. Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Éder, Cerezo, Oscar... Era impossível não acreditar. Colecionei figurinhas, tabelas, recortes de jornais. Tenho muitos deles até hoje.

A Seleção encantava o mundo. Até chegar o dia 5 de julho. A maldita Tragédia do Sarriá. Paolo Rossi resolveu fazer a partida da vida justamente contra o Brasil. Perdemos por 3 a 2 quando o empate bastava. Ainda hoje lembro daquela tarde. Naquela tarde o futebol deixou marcas.

A Seleção que jogava o futebol mais bonito do planeta voltou para casa sem sequer terminar entre as quatro melhores. Às vezes, o futebol premia a eficiência. Nem sempre recompensa a beleza.

Em 1986 veio outra esperança. Outra vez Telê. Outra vez uma grande geração. Outra vez a França atravessando nosso caminho. A eliminação nos pênaltis foi dolorosa. Ver Zico, Sócrates e Falcão encerrarem suas histórias em Copas sem levantar uma taça parecia uma injustiça cometida pelo próprio futebol.

Em 1990 começou uma transformação. Saiu o futebol-arte. Entrou o futebol burocrático. Saiu Telê. Entrou Sebastião Lazaroni. A convocação parecia reunião de ex-jogadores do Campeonato Carioca.

A Seleção nunca empolgou e caiu diante da Argentina. Ali percebi que meu jeito de torcer estava mudando. Eu continuava gostando de futebol. Mas já não acreditava em contos de fadas.

Em 1994 veio o tetra. Antes mesmo da bola rolar, como bom palmeirense, já estava indignado. Até hoje considero uma das maiores injustiças o Evair ficar fora daquela Copa enquanto Viola embarcou para os Estados Unidos. Parreira nunca prometeu espetáculo. Prometeu resultado. Cumpriu.

Foi um futebol tão pragmático que, em alguns momentos, parecia um curso intensivo sobre como não correr riscos. Mas funcionou. Quando Roberto Baggio mandou aquela bola para a lua, depois de 24 anos o Brasil voltou a ser campeão.

Em 1998 chegamos novamente à final. O que aconteceu antes daquele jogo continua cercado de perguntas. O que aconteceu durante a partida continua difícil de explicar. E o que aconteceu depois continua alimentando teorias até hoje. Melhor mudar de assunto...

Em 2002 veio o pentacampeonato. Scolari transformou um grupo desacreditado numa Seleção competitiva. Ronaldo renasceu. Rivaldo jogou uma barbaridade. Ronaldinho fez chover. Marcos, “São Marcos” ... Foi um título incontestável.

Em 2006 inventaram o "Quadrado Mágico". A única mágica foi fazer tanto talento desaparecer dentro de campo. Mais uma vez a França nos eliminou. Parece que o galo francês sempre teve uma certa implicância com o canarinho.

Em 2010 tivemos Dunga. Zangado, Dengoso, Feliz... Só faltou o Mestre para completar a turma dos sete anões. A Copa foi tão sem graça que minha melhor lembrança continua sendo a música da Shakira.

Em 2014 tivemos a Copa em casa. Prometeram legado. Entregaram estádios bilionários, muita política, muita suspeita de corrupção e um dos maiores vexames da história. O inesquecível 7 a 1. "Lá vêm eles de novo..." Nunca uma frase de Galvão Bueno traduziu tão bem o sentimento de um país inteiro.

Em 2018 a Bélgica acabou com o sonho. Em 2022 foi a vez da Croácia.

E em 2026, curiosamente, outra eliminação em um 5 de julho. Mas dessa vez foi diferente. Não senti a dor de 1982. Talvez porque aquela Seleção de Telê ainda esteja viva dentro de mim. Consigo escalar aquele time de olhos fechados.

Desta Seleção de 2026, confesso que ainda preciso pensar para lembrar de alguns nomes. O futebol mudou. Os jogadores mudaram. Os clubes mudaram. E nós também mudamos. Antes existiam ídolos. Hoje existem marcas. Antes o menino sonhava em vestir a camisa da Seleção. Hoje sonha primeiro com um contrato milionário na Europa.

Antes discutíamos esquema tático. Hoje discutimos penteado, tatuagem, dancinha e postagem nas redes sociais. Talvez seja apenas saudade. Ou talvez a nostalgia tenha essa estranha mania de sempre vencer por goleada. Enquanto isso, o hexa virou promessa de campanha. Aparece bonito de quatro em quatro anos. Convence muita gente. E desaparece logo depois da apuração.

Seguimos esperando. Já são seis Copas sem conquistar o tão sonhado hexa. Somos hexa na espera...  Mas a verdade é que aquela dor de 1982 nunca mais voltou. Talvez porque o futebol tenha mudado.

Talvez porque eu tenha mudado. Ou talvez porque as Copas de hoje já não despertem aquele menino que jogava bola até escurecer, colecionava figurinhas e acreditava que vestir a camisa amarela bastava para vencer. O resto... Bem, o resto é apenas futebol. Se 1978 deixou cicatrizes, 1982 deixou saudade... A verdade é que aquela dor de 1982 nunca mais voltou. Talvez porque o futebol tenha mudado. Talvez porque eu tenha mudado...