Olho para o espelho todas as manhãs e mal percebo as mudanças. Elas chegam devagar, em silêncio, quase sem pedir licença. Mas basta abrir um álbum e encontrar uma fotografia de trinta anos atrás para entender que aquele homem já não é exatamente o mesmo. Mudou um pouco... ou talvez muito mais do que imaginava.

O poeta perguntou: "Aonde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora?" A resposta não é simples. O espelho de hoje revela rugas, cabelos embranquecidos e as marcas que o tempo fez questão de deixar — não como castigo, mas como testemunhas da vida.

A vida nos lapida. Depois de tantos tombos, os ouvidos se tornam seletivos. Aquilo que antes encantava hoje soa como conversa vazia. O que parecia profundo, muitas vezes era apenas barulho. A idade não nos rouba a sensibilidade; ela apenas nos ensina que nem tudo merece nossa atenção.

A paciência diminui, o filtro aumenta. Há coisas que simplesmente deixam de nos interessar, e descobrimos, sem culpa, que já não queremos saber de tudo.

E os amigos? O poeta também pergunta: "Quantos amigos você jogou fora?" Alguns partiram cedo demais. Outros simplesmente desapareceram, engolidos pela correria ou pela indiferença. Restaram poucos, mas suficientes. Com o tempo, a quantidade perde para a qualidade.

Vivemos, também, a era do descartável. Segredos já não despertam interesse. Histórias profundas competem com vídeos de quinze segundos. O que antes era íntimo virou conteúdo. O que era valioso passou a parecer antiquado.

Mas nada supera o grande espetáculo das redes sociais. Nunca foi tão fácil parecer feliz, bem-sucedido ou interessante. Há quem publique uma vida que nunca viveu, um lugar onde nunca esteve, uma felicidade que nunca sentiu. A aparência ganhou da essência. A embalagem vale mais do que o conteúdo.

Hoje percebo que quase nada é exatamente o que parece. A mentira virou rotina e a verdade, artigo raro.

Se a vida ficou como imaginei? Nem de perto. Achei que a maturidade traria respostas. Trouxe apenas mais perguntas, menos tolerância para a hipocrisia e a convicção de que, nesse grande teatro moderno, o melhor lugar continua sendo longe do palco. De preferência, perto da saída.