Há
memórias que não precisam de fotografia para permanecer vivas. Basta um cheiro,
uma música, uma embalagem antiga ou, quem sabe, o simples barulho de um papel
sendo aberto para que, de repente, a infância volte inteira.
A minha infância é feita de muitas dessas
lembranças. E algumas têm cheiro, sabor e até o barulhinho da embalagem sendo
aberta. Íamos à venda, ao armazém da esquina, com algumas moedinhas apertadas
na mão, contando uma por uma para ver se dava para comprar um chiclete. E
quando dava… era festa!
Um Ping Pong, um Ploc, uma
figurinha e pronto: estava comprado um pequeno momento de felicidade. Naquele
tempo, algumas moedinhas tinham um valor enorme. Não pelo que compravam, mas
pela alegria que eram capazes de trazer.
Havia uma época em que criança andava pela rua
com a cabeça baixa. Não era tristeza, não. Era estratégia. Os olhos estavam
atentos ao chão. A gente procurava figurinhas. As figurinhas dos chicletes Ping
Pong, do Ploc, eram pedaços de uma infância que hoje parecem pequenos demais
para explicar o tamanho da felicidade que proporcionavam.
O
Ping Pong era muito mais do que uma goma de mascar. Era companhia, brincadeira,
sabor e surpresa. Lançado no Brasil em 1945, tornou-se um daqueles produtos que
atravessaram gerações e acabaram fazendo parte da cultura popular brasileira.
A
fórmula era simples e genial: você comprava o chiclete e levava junto um
pequeno pedaço de diversão. Podia vir uma figurinha de futebol, um personagem,
um tema esportivo, uma coleção de carros, uma Copa do Mundo ou tantas outras
possibilidades.
Quem
viveu o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980 certamente se lembra da
febre das coleções. Uma das que mais marcou minha infância foi a Futebol Cards
Ping Pong, lançada na virada de 1978 para 1979. Eram 484 cards, reunindo
jogadores de 22 clubes brasileiros. Os cartões vinham acompanhados do
tradicional chiclete Ping Pong e traziam, no verso, informações sobre cada
jogador, como clubes, hobbies e curiosidades.
Abrir cada envelope era uma expectativa. Será que viria aquele jogador que faltava? E, quando aparecia repetido, começava a negociação com os amigos: “Troca essa comigo? É eu não tenho essa na minha coleção!”
Ainda
guardo vários desses cromos. Hoje, quando os reencontros, percebo que eles são
muito mais do que simples cartões. São pequenas cápsulas do tempo, capazes de
trazer de volta amigos, brincadeiras e a emoção de uma infância em que
completar uma coleção era quase como conquistar um campeonato.
Copa
do Mundo da Espanha 82... Essa eu juntei, o meu álbum quase ficou completo...
não sei por onde deixei o meu álbum que tanto foi difícil juntar... Os países,
os jogadores, os craques, os escudos, os uniformes... Tudo dentro de um
universo chamado, figurinha.
E
havia também a Fórmula 1. Carros, pilotos, velocidade e aquelas máquinas que
faziam a imaginação de uma criança acelerar junto. Das 180 figurinhas da
coleção, consegui juntar 175 — faltaram apenas cinco para completar o álbum. O
álbum, infelizmente, não consegui guardar; restaram as figurinhas, que ainda
hoje preservo como pequenas relíquias de uma infância cheia de descobertas.
E
elas não estão sozinhas. Ainda guardo figurinhas das “Máquinas Quentes” do Ploc
e, claro, os inesquecíveis cartões de futebol do Futebol Cards Ping Pong.
Mais
do que coleções, são pedaços de uma época que o tempo não conseguiu apagar.
Quando olho para eles hoje, não estou vendo apenas papel impresso. Estou vendo
ruas. Estou vendo amigos. Estou vendo tardes intermináveis. Estou vendo
crianças sentadas no chão, trocando figurinhas e discutindo quem tinha o melhor
jogador. Estou vendo uma época em que possuir uma coleção completa era quase
uma conquista de campeonato.
Colecionar
era aprender a guardar: Talvez tenha sido ali que nasceu, em mim, o gosto por
colecionar. Porque colecionar não é simplesmente guardar coisas. É preservar
histórias. Cada objeto passa a carregar uma lembrança. Uma figurinha lembra um
amigo.
Um
álbum lembra uma época. Um brinquedo lembra uma tarde. Um disco lembra uma
música. Um livro lembra uma descoberta. E, quando o tempo passa, aquilo que
parecia pequeno ganha um valor que nenhum dinheiro consegue medir.
Hoje,
quando encontro minhas antigas coleções, às vezes fico alguns minutos olhando
para elas. E me pergunto: Como pode um pedaço tão pequeno de papel carregar
tanta memória? Talvez porque não seja o papel que estamos guardando. Estamos
guardando quem éramos.
O
Ping Pong mudou de mãos ao longo dos anos, passou por diferentes empresas e
acabou deixando de ser produzido em 2015. Para muitos, foi simplesmente o fim
de uma marca. Para nós, que vivemos aquela época, foi um pouco diferente. Foi
como se uma pequena porta da infância tivesse sido fechada. Mas há portas que
nunca desaparecem completamente. Basta encontrar uma velha figurinha. Abrir uma
caixa. Folhear um álbum. E lá está ela. A infância esperando. Às vezes penso
que ainda ando de cabeça baixa. Não porque procuro uma figurinha perdida no
caminho. Mas porque, de vez em quando, procuro no chão do passado alguma coisa
que o tempo deixou para trás. Um pedaço de papel. Uma lembrança. Um amigo. Uma
tarde...
Um
sabor de tutti-frutti ou hortelã... Uma
bola de chiclete. Uma coleção incompleta. E talvez seja justamente isso que
torna a nostalgia tão bonita. A gente sabe que não pode voltar. Mas pode
lembrar. E, enquanto lembrar, aquela criança continua existindo. Aquele menino
que andava pelas ruas com a cabeça baixa, os olhos atentos ao chão e o coração
cheio de esperança...
Talvez
ainda esteja por aí, procurando a próxima figurinha. E, se encontrar,
certamente vai sorrir. Porque algumas coleções nunca terminam. A coleção das
nossas memórias é uma delas.





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