Talvez
o tempo tenha perdido a paciência. Ou talvez sejamos nós que desaprendemos a
esperar. Tudo anda depressa demais. Gente apressada, sentimentos rasos, vidas
expostas e uma vontade danada de mostrar que está tudo bem... de parecer aquilo
que não é, só para ser aquilo que os outros esperam.
Outro
dia fiquei pensando nisso, olhando para algumas lembranças que o tempo guarda
sem pedir licença. Nos meus quase 18 anos, e depois nos vinte e poucos, as
tardes pareciam não ter fim. Eram longas, leves e cheias de tempo para viver,
conversar, rir e transformar momentos simples em grandes lembranças.
Tinha
café passado na hora, conversa na varanda, riso fácil e histórias que ninguém
tinha pressa de terminar. A gente não precisava estar feliz o tempo todo. Não
precisava provar nada para ninguém. O valor estava no caráter, na palavra, no
jeito de tratar as pessoas.
Valia
mais um aperto de mão sincero, daqueles que diziam muito sem precisar de
palavra, do que a fotografia mais bonita. A fotografia registrava o momento; o
aperto de mão mostrava quem a pessoa era. Naquele tempo, a gente valorizava
mais a verdade do encontro do que a aparência da imagem.
A
conversa podia durar a tarde inteira. Ninguém tinha pressa de terminar e o silêncio
também não incomodava. O vizinho sentava na calçada, o rádio tocava ao longe,
as crianças brincavam na rua e, depois do almoço, a rede de balanço ficava ali,
esperando alguém.
Hoje,
tudo parece precisar de registro. Fotografia, no meu tempo, era guardada em
caixa. Tinha cheiro de papel, de lembrança, de saudade. A gente abria a caixa e
via pessoas, lugares e momentos que faziam parte da nossa história.
Hoje
guardamos versões de nós mesmos nas telas. No meu tempo, guardávamos
fotografias em caixas — cada uma carregando uma história, um momento, uma
saudade. Hoje, muitas vezes, guardamos versões que escolhemos mostrar: a melhor
foto, o melhor ângulo, o melhor sorriso. E, muitas vezes, nem é mais o sorriso
verdadeiro, mas aquele que o aplicativo criou ou corrigiu. Como se a vida
precisasse estar sempre bonita, perfeita e pronta para ser exibida.
Trocávamos
histórias. Hoje trocamos curtidas. O abraço virou emoji. A presença virou
notificação. E até a beleza parece precisar da aprovação de alguém.
Queremos
ser admirados por quem, muitas vezes, nem conhece a nossa história — e, pior,
nem conhece quem realmente somos. É beleza sem verdade, verdade de menos e
barulho demais. Talvez seja por isso que sinto tanta saudade das coisas
simples, daquelas que não precisavam ser mostradas para terem valor.
Da
varanda cheia. Da conversa sem hora. Do café sem pressa. Do amigo que chegava
sem avisar. Da fotografia antiga. Do riso que não precisava de motivo.
Hoje
temos tela demais e varanda de menos. Rede social demais e rede de balanço de
menos. Estamos cercados de gente e, mesmo assim, tantas vezes sozinhos. A vida
não precisa ser uma vitrine.
A
gente não precisa parecer feliz o tempo inteiro. Não precisa mostrar tudo. Não
precisa provar nada. Precisa apenas viver. Viver o café. A conversa. O abraço.
A amizade. Aquele encontro inesperado. Aquela tarde que parece não ter fim.
Talvez
esteja na hora de desacelerar. Sentar na varanda. Olhar nos olhos. Ouvir sem
pegar o celular. Rir sem fotografar.
Abraçar sem postar. Porque, no fim, ninguém vai lembrar quantas curtidas
tivemos.
Vão
lembrar do jeito que tratamos as pessoas. Do abraço que demos. Da conversa que
tivemos. Da presença que deixamos. Porque a vida, de verdade, não está naquilo
que conseguimos mostrar.
Está
naquilo que conseguimos sentir. E algumas coisas, para mim, nunca deveriam sair
de moda: caráter, palavra, amizade, afeto e o velho costume de olhar nos olhos
de alguém enquanto ela fala.
O
tempo pode continuar correndo. Eu, particularmente, ainda prefiro algumas coisas
no ritmo de antigamente. Sem pressa. Como eram as tardes em Rio Verde, com a
revoada das tanajuras anunciando a mudança do tempo e aquele cheiro
inconfundível do café sendo torrado, que se espalhava pelas ruas e convidava a
gente a parar um pouco. Como eram as histórias, as conversas e aqueles pequenos
momentos que hoje parecem tão distantes. Como era a vida quando viver era mais
importante do que aparecer.
Porque,
no fim das contas, tudo passa. O que fica é a memória. E memória boa... Ah,
essa o tempo não apaga.

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