Já fiz campanha política. Vivi esse universo de noites e madrugadas, de ruas percorridas, cartazes colados e muito trabalho. Já preparei grude em fogareiro para fixar cartazes nos muros. Depois, aprendi que acrescentar soda cáustica à mistura de fécula de mandioca fazia o grude ficar pronto quase imediatamente. Também participei da montagem de palanques. Venho de outros tempos, de outra maneira de fazer política.

Há quase 50 anos, lembro-me do meu pai percorrendo as ruas de jipe durante as campanhas. Eu estava ali, acompanhando tudo, observando e absorvendo aquelas cenas que o tempo transformou em memória. Lembro-me dos comícios em carrocerias de caminhão, dos churrascos, das galinhadas regadas a cerveja e da movimentação que tomava conta das cidades. Já vi showmícios com grandes atrações, verdadeiros espetáculos populares que reuniam multidões.

Em 1986, vivemos uma daquelas histórias que só a política é capaz de produzir. Anunciaram que Nelson Ned encerraria a campanha do PMDB em um comício na Avenida Presidente Vargas. Até nós, que estávamos do lado político contrário, fomos conferir a atração. O comício estava lotado. No final, o locutor pediu desculpas pela ausência do cantor e anunciou Elza Soares. Ficou a história, a lembrança e, claro, a surpresa de quem esperava um artista e acabou recebendo outro.

Também trabalhei com pesquisas eleitorais. Durante dez anos, fiz parte de um instituto pelo qual tenho respeito, sério e comprometido com a verdade dos dados. Viajei por muitas cidades, acompanhei levantamentos e gráficos, conheci realidades diferentes e aprendi a observar a política para além dos discursos e das promessas. Uma pesquisa séria não existe para agradar candidatos, mas para retratar uma realidade. Isso não significa ignorar as tentativas de manipulação, as estratégias de comunicação e os interesses daqueles que detêm o poder.

Ao longo de todos esses anos, vivi muita coisa nas estradas, nos bastidores, nas ruas e nos palanques. Vi a política de perto, em suas diferentes fases, com suas virtudes, contradições, esperanças e decepções.

Talvez por isso me incomode tanto a maneira como ela vem sendo praticada hoje. Não é saudade de um passado perfeito, porque ele nunca existiu. Naqueles tempos também havia interesses, disputas, promessas e artimanhas. A diferença é que, na minha percepção, a política de hoje parece ter perdido parte de sua essência: o diálogo, o respeito às diferenças, o compromisso com a verdade e, sobretudo, a preocupação com as pessoas.

A política deveria ser o caminho para construir soluções, aproximar cidadãos e transformar realidades. Entretanto, quando se torna apenas um jogo de poder, de ataques, de manipulação e de interesses particulares, deixa de cumprir sua finalidade mais nobre.

Depois de tantas campanhas, tantas estradas percorridas e tantas histórias vividas, confesso: a política de hoje, da maneira como vem sendo conduzida, me causa indignação e, muitas vezes, repulsa.

Não digo isso como alguém que conhece a política apenas pelas notícias ou pelas redes sociais. Digo como quem já esteve dentro desse universo, sentiu o cheiro do grude no fogareiro, ajudou a preparar cartazes, montou palanques, acompanhou pesquisas e viu multidões se reunirem para ouvir promessas.

Carrego as lembranças de outros tempos, mas não quero viver preso ao passado. Gostaria apenas de voltar a enxergar na política aquilo que um dia me fez acreditar nela: a possibilidade de servir, de participar e de construir um futuro melhor.

Porque a política não deveria nos causar repulsa, mas nos representar. Afinal, democracia se faz de alternância, não de perpetuação do poder.

E talvez a maior decepção de quem viveu tantas fases desse universo seja justamente esta: perceber que aquilo que deveria aproximar as pessoas está se transformando, cada vez mais, em motivo de divisão.