| Rua Costa Gomes |
Sem querer, fui me lembrar de uma rua e de seus lembretes. Fiquei pensando se alguém, em algum tempo, anotou aquelas cenas em bilhetes miúdos, guardados no bolso ou no fundo de uma gaveta. Por ali passei inúmeras vezes — tantas que já perdi a conta. Era caminho de infância, de ida e de volta, quase um rito diário. De um lado, a praça da Matriz. Do outro, a casa de alguém. Mais adiante, a casa da Aline… a bela Aline. Do outro lado, tanto faz — não sei mais de quem eram. A rua Costa Gomes é longa. Começa no ponto mais baixo da cidade, embora, em tempos longínquos, não começasse exatamente onde começa hoje, os asfalto não ia onde vai hoje, mamoneira e lobeira, carrapicho e timbete. As ruas também mudam de lugar, como a memória anotado em bilhete.
Morei nela. A entrada da casa não dava diretamente para a Costa Gomes, mas para a estreita Viela Jataí. Ainda assim, a esquina era com ela, e isso bastava para que a rua fizesse parte da minha rotina, do meu olhar e da minha memória. Era ali que a vida passava, mesmo quando a porta se abria para outro lado. Na viela, pulsava outro mundo: o cheiro de madeira recém-cortada, a serragem espalhada pelo chão, o som discreto do trabalho que nos sustentava. Ali funcionava a marcenaria do pai — e quantas saudades esse espaço ainda nos traz, como se o tempo tivesse aprendido a morar naquele aroma. Na Costa Gomes havia a torrefação do Café Rio Verde. O cheiro… ah, o cheiro. Invadia as narinas, tomava o ar, misturava-se às manhãs e às tardes, marcando o tempo melhor do que qualquer relógio. Hoje, esse aroma não invade mais nada — ficou apenas na lembrança, dessas que a gente sente mesmo de olhos fechados.
O Mercado Velho também fazia esquina com a rua, assim como a Padaria Flor do Trigo, sempre generosa em perfumes de pão quente e conversas rápidas na porta. Eram pontos de encontro disfarçados de comércio, lugares onde se trocavam notícias, sorrisos e pequenos silêncios. E havia, ainda, a esquina mais aguardada de todas: aquela que conduzia ao paraíso dos brinquedos — a nossa maravilhosa Casa das Louças. Ali, o mundo parecia caber inteiro dentro das vitrines. Cada objeto era uma promessa silenciosa, cada olhar, um sonho que pedia tempo para acontecer. Na porta, as bicicletas alinhadas chamavam como um convite irrecusável — não esqueça a minha Caloi… esqueceram. Não era apenas uma loja: era um território mágico, onde a infância se demorava sem pressa, mesmo quando o tempo, lá fora, insistia em seguir adiante.
Seguindo pela rua, chegava-se à Som Livre, do
amigo José Lázaro. Quantos LPs eu vi naquela loja… capas coloridas, nomes
importantes, promessas de sons que eu ainda não podia ouvir. Não tinha
toca-discos, então apenas olhava — e olhar já bastava. A música morava inteira
na imaginação, tocava sem agulha, girava sem prato. E talvez fosse por isso que
marcasse tanto. Como naquelas palavras que o tempo não apagou: “Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto
de ter... Só assim sinto você bem perto de mim... Outra vez...”
Fundada em 3 de dezembro de 1973 para ser a casa do lojista, a CDL Rio Verde consolidou-se ao longo das décadas como uma entidade reconhecida em todo o país. Sua história também passa pela Costa Gomes, endereço que marcou uma fase importante de sua trajetória e de sua proximidade com o comércio local.
A Costa Gomes segue lá, cumprindo seu papel de
rua. Mas, para quem a atravessou tantas vezes, ela é mais do que isso: é um fio
invisível que costura lembranças, um caminho onde o passado insiste em passar
de novo, devagar, como quem não quer ir embora.
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