Conheci o mar em janeiro de 1982, e a última vez
que o vi foi em janeiro de 2018, na bela Peruíbe — como se o tempo, delicado e
silencioso, tivesse escolhido encerrar esse ciclo com a mesma chave. A primeira
e a última visão aconteceram no litoral sul paulista, esse lugar onde a memória
tem gosto de sal e o silêncio aprendeu a esperar. Naquele verão de 82, enquanto
o toca-fitas embalava Garota Dourada, do Rádio Táxi, eu descia a serra
ao lado da inesquecível Cosete, no Comodoro vermelho, e o mar azul me aguardava
como um rito sereno de iniciação. Entrei no mar como quem aprende a escutar e,
entre ondas tímidas e descobertas lentas, fui sendo apresentado às praias de
Itanhaém.
Que saudade de caminhar pela orla da praia — um
gesto simples, quase um exercício de memória. Andar devagar, sentindo o cheiro
salgado no ar e ouvindo o marulhar das ondas que, sem pedir licença, tocam os
pés, como se quisessem lembrar que ainda sabem tocar alguém. Caminho assim, sem
pressa, como quem pede licença ao tempo, respirando o sal suspenso no vento e
deixando que o som do mar organize os pensamentos. Não, a praia não é para
beber. Pelo menos não para mim. Não quero copos plásticos, nem o barulho hostil
das caixinhas de som rasgando o silêncio com um funk estridente ou com esse “sertanojo”
enlatado, feito para durar uma estação e se perder no esquecimento. A praia
pede menos ruído e mais escuta.
Quero apenas andar. Só isso. Andar quando a manhã
ainda se espreguiça, tímida, ou no entardecer, quando o sol se despede em tons
de um ouro cansado, como quem já fez o suficiente por hoje. Observar as
gaivotas em bando, riscando o céu baixo, catando mariscos com a sabedoria de
quem não desperdiça gestos nem tempo. Elas não gritam hits do verão, não pedem
likes, não disputam atenção. Apenas existem. Fly away…
Eu só queria andar. Chutar as ondas, como fazia em
outros tempos. Sentir os pés afundarem na areia, numa cumplicidade silenciosa
entre o corpo e a natureza. Sem pressa, sem trilha sonora imposta, sem a
obrigação de parecer feliz para ninguém — apenas existir, inteiro, naquele
instante.
Só eu, o mar e essa nostalgia que me
acompanha desde a primeira vez em que o vi — lembrando, com uma nostalgia
mansa, que a simplicidade virou artigo de luxo e que, com uma doçura quase
irônica, aquilo que um dia foi essencial hoje se tornou raro. Saudade do meu
short de surfista e da minha camisa havaiana, quando bastava pouco para ser
inteiro e o mundo cabia num passo lento à beira d’água.
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