Você já percebeu que um amarelinho começou a se espalhar pelas esquinas, pelos fios, pelos terrenos baldios da cidade? Ele está ali, quase sempre discreto, mas impossível de ignorar quando resolve cantar. O canário-da-terra voltou. E ninguém contou.

Lembro de quando ele quase desapareceu. Não por falta de sol, nem de espaço, mas por excesso de gaiolas. Durante anos, quem passava por varandas ou quintais via apenas jaulas com aquele amarelo vivo preso dentro. Mas, de vez em quando, o mundo aprende. Vieram leis mais firmes, campanhas de conscientização, conversas quase sussurradas sobre liberdade e respeito. O canário foi ficando menos preso, mais pássaro. E, quando pôde, voltou.

Voltou encontrando a cidade que mudou, mas ainda lembra dele. Campos abertos, gramados, jardins improvisados, terrenos vazios esperando destino. Um punhado de quirera de milho jogado no chão e, em minutos, eles aparecem. Como se dissessem: “estávamos só esperando, a vida não parou”.

O canário-da-terra — o mesmo que deu apelido à Seleção Brasileira, o Canarinho, desde a Copa de 1954 — traz no canto agudo uma alegria antiga. A plumagem amarelo-vibrante ilumina o que restou das tardes na infância, lembrando que a vida insiste, mesmo depois de tanta ausência.

Hoje, em muitos lugares, ele ocupa espaços que antes eram só dos pardais. Não por disputa, não por guerra, mas por uma vitória silenciosa, dessas que só a natureza sabe construir. Um retorno sem discursos, sem placas comemorativas. Apenas um canto no fio, no fim da tarde, dizendo que algumas histórias, quando respeitadas, sabem recomeçar.

E é isso que faz a cidade parecer mais humana: perceber que, enquanto corremos atrás de compromissos, construímos e esquecemos, um pequeno pássaro amarelo nos ensina que liberdade também sabe voltar para casa — e que, às vezes, a beleza mora nas coisas mais simples que a gente quase esqueceu de olhar.