Minha busca pela história e pela preservação da memória sempre me conduziu a um mesmo caminho: contar histórias. E este é, precisamente, um desses momentos de retorno ao passado — um convite a revisitar a trajetória da Igreja de São Sebastião. Para isso, é preciso começar pelo princípio: quem foi Sebastião e por que o 20 de janeiro carrega tamanho significado.

Sebastião foi soldado romano, homem de armas, ordem e disciplina, mas, acima de tudo, de fé inabalável. Em tempos de severa perseguição aos cristãos, pagou caro por professar sua crença. Condenado à morte por flechas, sobreviveu — e há nesse episódio algo profundamente humano e simbólico: ferido, recolhido, curado. Poderia ter silenciado, escolhido o esquecimento. Mas voltou. Voltou para confrontar o imperador Diocleciano. Voltou porque a fé, quando é verdadeira, não aceita meias palavras nem recuos. Martirizado novamente, desta vez açoitado até a morte, Sebastião morreu em Roma, em 20 de janeiro de 288, diante de uma multidão. Morreu, mas permaneceu.



Séculos depois, longe de Roma, nas terras vermelhas do interior goiano, outra história começava a ser escrita — também feita de doação, fé e esperança. Em 25 de agosto de 1846, José Rodrigues de Mendonça e sua esposa, Florentina Cláudia, doaram sete sesmarias de suas terras para o patrimônio da Igreja e a construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora das Dores. Um gesto simples, talvez, mas decisivo. Dali nasceu o Arraial de Nossa Senhora das Dores do Rio Verde, nome longo, como eram longas as distâncias, os caminhos e as esperas daquele tempo. Em 5 de agosto de 1848, o arraial foi elevado à categoria de Distrito de Rio Verde, e, no mesmo ano, criou-se a Paróquia Nossa Senhora das Dores. A primeira igreja era rústica, erguida com os recursos disponíveis: fé, braços e perseverança. Assim se construíam não apenas templos, mas comunidades inteiras.



A Igreja de São Sebastião surgiu no final do século XIX e ocupa lugar central na formação histórica e religiosa da região. Foi a primeira construção religiosa em alvenaria, símbolo de solidez em um período marcado por edificações simples e provisórias. O primeiro vigário da paróquia foi o Padre Serafim José da Silva, que permaneceu à frente da comunidade até seu falecimento, em 1885. Em reconhecimento à sua dedicação pastoral, seus restos mortais foram sepultados no pilar do portão de entrada do Cemitério São Miguel, inaugurado em 1906. Após sua morte, a paróquia passou a ser conduzida pelo Padre Mariano Ignacio de Souza, que assumiu em 1887 e permaneceu até 1917, ano de seu falecimento. Foi sob sua condução que teve início, por volta de 1907, a edificação da Igreja de São Sebastião: uma obra sólida, inteiramente em alvenaria, distinta de tudo o que existia até então. O templo foi inaugurado em 1912 e, mais tarde, tombado como Patrimônio Histórico de Rio Verde.



Durante mais de sessenta anos, a Igreja de São Sebastião exerceu a função de Matriz da Paróquia Nossa Senhora das Dores, até a inauguração da atual Igreja Matriz, em 1975. Ao longo desse período, passou por importantes reformas que reforçaram sua presença como símbolo de fé, identidade e permanência. Na década de 1940, a igreja ganhou sua torre central e o relógio, que por muitos anos ensinou a cidade a medir o tempo, numa época em que poucos tinham relógio no pulso. Ali também foi sepultado o Padre Mariano, segundo vigário residente da paróquia, cuja história se confunde com a do próprio templo. Quantos batizados, quantos casamentos, quantas despedidas passaram por aquelas paredes? Quantas promessas foram feitas em silêncio, entre bancos de madeira e olhares voltados ao alto?


Minha doutrina de berço é o Espiritismo, mas o carinho e o respeito pelos amigos do Catolicismo — assim como por todas as crenças — sempre caminharam comigo. Com o tempo, aprendi que não é a religião que nos define, mas a religiosidade que habita o ser, silenciosa e profunda. Pouco importa o nome da fé que se professa: o Mestre é o mesmo para todos, o Mestre da luz que não se apaga.



Há datas que não são apenas números. Há igrejas que não são apenas prédios. E há santos que não pertencem somente aos altares, mas à memória viva de um povo. São Sebastião é isso: flecha, coragem e permanência. E Rio Verde, ao lembrar, também se reconhece. Porque lembrar, no fundo, é uma forma de continuar.