Gosto de contar histórias, mas ouvi-las é parte primordial e fundamental desse exercício de memória. Quando escutamos alguém narrar suas vivências, o valor é ainda maior, pois amplia o nosso acervo de lembranças e nos conecta ao passado coletivo. Conheço Lourival Ribeiro Carvalho desde quando eu ainda era menino e passava pelas bancas do antigo Mercado Velho. Hoje, aos 81 anos, ele é conhecido por todos simplesmente como Lourival do Queijo, comerciante há mais de seis décadas e uma figura simbólica da história comercial e social de Rio Verde.
Casado há 51 anos com dona Izabel, Lourival
construiu uma família sólida e respeitada. Do casamento nasceram dois filhos:
Lourival e Lázaro (in memoriam). Sua trajetória profissional se confunde com a
própria história do Mercado Velho, espaço que marcou gerações.
Lourival chegou ao Mercado Velho praticamente
desde a sua inauguração. A obra havia sido edificada durante a gestão do
prefeito Paulo Campos, e ele iniciou suas atividades comerciais logo no começo
do mandato do então prefeito Eurico Veloso. Naquele período, o mercado era
organizado em três fileiras de bancas, onde se vendia de tudo um pouco. A banca
de Lourival localizava-se na fileira central, a de número 20, onde eram
comercializados polvilho, queijo, doces, farinha e pimenta — os mesmos produtos
que, ainda hoje, ele segue oferecendo, um pouco mais abaixo, na Rua Costa
Gomes.
Ao longo de décadas, ali se construíram laços de
amizade, confiança e credibilidade — valores que marcaram aquele tempo. Naquela
época, João Uberaba trazia verduras de fora em caminhões. Lourival era o
responsável por receber as mercadorias, anotar os volumes e distribuí-los entre
as bancas. Todas as quintas-feiras, os produtos eram entregues aos
comerciantes. Chico, Crispim, Adelson e Lucimar estavam entre eles. Foram mais
de vinte anos dedicados a esse trabalho coordenando as entregas.
Lourival recorda que fretou muitos caminhões de cimento para João Uberaba. Inclusive, foi ele quem alugou o imóvel onde João instalou seu comércio, na Rua Itagiba Gonzaga Jayme, reforçando uma parceria marcada pela confiança mútua. Naquele tempo, a cidade ainda não contava com asfalto. As ruas eram de cascalho, e, segundo Lourival, o asfalto chegou primeiro às áreas de maior força comercial, especialmente onde hoje se localizam as ruas Rui Barbosa e Gumercindo Ferreira.
O Mercado Velho era referência absoluta para a comunidade. Ali, as pessoas iam para comprar tudo o que era necessário para o abastecimento das residências. Mais do que um espaço de comércio, era um ponto de convivência e encontro social. Apaixonado por política, Lourival acompanhou de perto as transformações da cidade também nesse campo. Após a conclusão da parte interna do mercado, ele passou a atuar na área externa, na Rua Costa Gomes. Ali, seu comércio tornou-se um ponto forte dos encontros políticos de Rio Verde. Surgia o famoso “Senadinho”, onde personalidades políticas da cidade se reuniam, sentadas em banquinhos de madeira, para debater e trocar ideias sobre a política rio-verdense. Era comum encontrar vereadores, deputados, prefeitos e também os conhecidos “bicões e sapos”, em animadas conversas recheadas de fofocas, falácias e verdades sobre a política local.
Lourival também teve participação ativa em
campanhas eleitorais. Ajudou o amigo comerciante Cilénio Modesto a se eleger em
sua primeira candidatura pelo PMDB, em 1982, e novamente na eleição seguinte.
Mais tarde, contribuiu para a eleição de seu irmão, Geraldo Carvalho.
A história de Lourival do Queijo é, acima de
tudo, um retrato vivo de uma época em que o comércio, a amizade e a política se
encontravam nas calçadas, nos mercados e nas conversas sem pressa — um tempo
que permanece vivo na memória de quem o viveu.
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