Meu pai me dizia que os anos 50 e 60 foram mágicos. Falava da segunda metade dos anos 50 com um brilho nos olhos — “aquilo, meu filho, você precisava ter visto”. Eu li sobre aquela época, ouvi histórias, vi fotos amareladas e filmes em preto e branco. Mas a década que eu vi, senti e vivi foi outra. Eu vi os anos 80.

Quando ela começou eu tinha 11 anos — fim da infância, começo da adolescência. Aquela fase em que tudo é intenso demais: as emoções, os sonhos, as amizades, as músicas tocando alto no rádio. Sempre que posso, volto para lá. Não num DeLorean de De Volta para o Futuro, mas pela memória, pelos vídeos antigos, pelas páginas dos livros, pelos acordes que ainda hoje me arrepiam.

Já ouvi dizer que foi “uma década perdida”. Já ouvi alguém afirmar que foi “uma geração perdida”. Respeito as opiniões — cada um carrega sua própria história. Mas, com todo carinho, discordo. Que década maravilhosa. Em todos os sentidos. Música, cinema, literatura, televisão, comportamento. Uma explosão criativa que parecia repetir, a cada novo sucesso: “we are the world, we are the children…”

Se os anos 60 ficaram conhecidos como os “anos dourados”, para mim os anos 80 foram os anos coloridos. Cores nas roupas, nos cabelos, nos videoclipes, nas capas de disco, nas aberturas de novela. Era exagerado, vibrante — e profundamente autêntico. Na política, atravessávamos os roncos do Regime Militar no Brasil, que chegaria ao fim em 1985. O ar era de expectativa e mudança. A juventude não se calava: cantava, questionava, ocupava as ruas — e também as pistas de dança. Entre acordes distorcidos e vozes inquietas, “Que País É Este” ecoava como um grito coletivo, vibrando nas guitarras, nos comícios improvisados e nas conversas de esquina.

E que guitarras. A magia do Rock Nacional (BRock). A década de 80 foi a “década de ouro” do rock brasileiro. Bandas que surgiram ou se consolidaram traduziram a inquietação e a lucidez de uma geração: Legião Urbana, Titãs, Os Paralamas do Sucesso, RPM, Kid Abelha, Barão Vermelho, Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial, Blitz, Roupa Nova, Ultraje a Rigor, Biquini Cavadão, Plebe Rude, Camisa de Vênus, Lobão, Nenhum de Nós, Lulu Santos e Ritchie. Era poesia urbana, crítica social, romance adolescente e ironia fina. Era “Tempo Perdido”, “Pro Dia Nascer Feliz”, “Como Eu Quero”, “Me Chama”. Nunca mais houve uma safra igual.

A explosão internacional: O mundo pulsava em sintetizadores, refrões épicos e solos de guitarra: U2, Queen, Tears for Fears, The Cure, Duran Duran, Guns N' Roses, Van Halen, Journey, Depeche Mode, Madonna, Whitney Houston, Cyndi Lauper, Tina Turner, Sade, Eurythmics, A LENDA, o inesquecível, Michael Jackson, George Michael, Bon Jovi, Bruce Springsteen — e a minha favorita, A-HA. Era a era da MTV, das coreografias na frente do espelho, das fitas cassete rebobinadas com caneta. “Billie Jean”, “Like a Virgin”, “Sweet Child O’ Mine”, “With or Without You”, “Take On Me”… trilhas sonoras de uma vida inteira.

Cinema, cultura e espetáculo: as salas viviam lotadas, e as filas dobravam o quarteirão. Havia algo de ritual naquele esperar ansioso pela sessão. Na tela, sucessos como E.T. Os Caça-Fantasmas, Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado, Top Gun e Os Goonies transformavam cada estreia em acontecimento. Era uma sequência quase interminável de clássicos que marcaram época e moldaram o imaginário de toda uma geração. E como não lembrar da primeira edição do Rock in Rio? Histórico, grandioso, inesquecível. Houve outras edições, claro. Mas a primeira… aquela tinha algo de inaugural, de irrepetível.

Era o tempo das ombreiras, das jaquetas jeans, dos cabelos volumosos. O tempo em que acreditávamos que o mundo podia ser melhor — e cantávamos isso em coro.  A lista da magia dos anos 80: O rádio como trilha sonora da vida, fitas cassete e VHS, novelas e programas que paravam o país, Rock nacional questionador, Pop internacional revolucionando a indústria, Filmes que se tornaram eternos, Moda ousada e sem medo, letras que misturavam poesia e protesto e uma juventude que sonhava alto.

Às vezes me pergunto: daqui a 40 ou 50 anos, alguém olhará para os dias de hoje com a mesma saudade? Citarão as músicas atuais como citamos as nossas? Falarão dos filmes de agora com o mesmo brilho nos olhos? Talvez cada geração tenha sua própria cor. Os anos 50 foram mágicos, como meu pai dizia. Os anos 60 foram dourados. Mas os anos 80… Ah, os anos 80 foram coloridos. E eu continuo voltando para lá — sempre que aperto o play.