Voltei outro dia para 1976. Assim, de repente… como
quem abre uma porta antiga e deixa o vento da memória entrar. Caminhei um pouco
por lá, mas não encontrei ninguém. As carteiras da sala estavam vazias. O pátio
também. Tentei 1977… os amigos não estavam na quadra, nem debaixo do pé de
jenipapo. Passei por 1978… a praça estava vazia. Em 79, a carteira dela também
estava vazia. Fui adiante. Em 81, a feira de sábado ainda faz parte do dia a
dia, mas a rua parecia silenciosa. A avenida seguia no seu vai e vem imaginado,
mas o 208A já não passava mais.
Em 85, a porta do colégio estava fechada. Ninguém
batia bola na quadra. O rádio estava desligado. Entrei pela porteira da
fazenda, depois de caminhar pela rodovia e pela estradinha que levava ao
Caminho do Sol. O curral estava vazio… lá também o rádio não tocava. O fogão
estava apagado. O baralho não estava sobre a mesa. E o pé de limão… já não
existia mais. Em 86, o colégio nem abriu. O Escort não estava estacionado na porta.
Não havia cartazes para colar — política já não se faz mais assim. Liguei, mas
ninguém atendeu... Curioso… ninguém estava mais lá.
As ruas continuam na lembrança, a escola ainda
existe no pensamento, e alguns caminhos eu ainda sei de cor. Andei por eles
devagar, como quem respeita o silêncio do tempo. Mas as vozes… aquelas vozes
ficaram espalhadas em algum lugar entre os anos. Eu gosto do passado. Sou
nostálgico, confesso. Mas não é tristeza, nem prisão. Não é viver preso ao que
já foi. É apenas o prazer simples de revisitar aquilo que me fez bem. A gente
volta, olha em volta, sorri sozinho… e depois retorna ao presente um pouco mais
leve.
E as músicas… ah, as músicas. Como sabiam fazer
música naquela época. Canções que atravessaram décadas sem pedir licença.
Algumas ainda moram nas minhas playlists, como velhos amigos que nunca perderam
o endereço. Música boa não envelhece. E também não se esquece.
Outro dia caminhei por uma rua que conheci há
muitos anos. Passei pela escola, pelas esquinas, pelos lugares onde um dia
estive. E percebi algo curioso… vocês não estavam lá. Mas, de algum jeito,
estavam. Porque certas presenças o tempo não leva embora. Elas continuam
vivendo nesse lugar invisível que existe entre a memória e o coração. E é lá
que, vez ou outra, eu volto para caminhar. Sem pressa… só para lembrar que
algumas coisas, mesmo distantes, nunca deixam de existir.

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