Nasci no final da década de 60. Fui criança nos
anos 70, quando a imaginação tinha corpo e os brinquedos voltavam para casa
marcados pelas aventuras do dia: barro nos pés, poeira nas rodas, histórias
grudadas neles. A fantasia não morava em telas. Morava nos joelhos ralados, no
quintal comprido, na rua sem nome e sem pressa. A imaginação tinha peso,
textura, cheiro de terra molhada. Era coisa viva. Eram tempos mais simples. O
tal do politicamente correto ainda não dava as caras, e a infância podia sair
um pouco da linha sem culpa. Não havia manual, aviso nem filtro. Havia
liberdade. A gente errava, aprendia, caía, levantava e ria alto. Viver não era
discurso — era prática diária.
Naquele tempo, a Estrela não fabricava brinquedos
— fabricava sonhos. Os revólveres de espoleta ecoavam em “bang, bang”
pelo quintal; as metralhadoras respondiam em “rata-ta-tá”, numa sinfonia
improvisada de aventura. Mocinhos e bandidos trocavam de papel sem dilemas — só
suor na testa, terra no joelho e gargalhada solta ao cair da tarde. As bonecas
tinham nome, personalidade e até dias de mau humor; eram quase gente, quase
família. Os carrinhos desafiavam pistas inventadas na hora, rampas de terra e
quedas cinematográficas. Havia poucos brinquedos e tempo de sobra — e dessa
escassez nascia a imaginação farta, numa combinação mágica que o tempo jamais
conseguiu repetir.
A Estrela atravessou gerações ensinando sem parecer
que ensinava. O Pega Varetas, silencioso e paciente. O Banco Imobiliário, explicando
o mundo adulto sem uma palavra: ganhar, perder, escolher. A Super Massa
colocava o mundo nas mãos da gente — torto, imperfeito, mas possível.
Nos anos 80, o futuro resolveu aparecer. Veio em
forma de Genius, o “computador que fala”, com luzes piscando no meio da sala.
Não era só jogo, era promessa. O Autorama transformava o chão em autódromo. A
Susi já parecia saber que o tempo mudaria. O Ferrorama, os Comandos em Ação… e
o Falcon. Ah, o Falcon. Camuflado, pronto para a selva e para a imaginação. Companheiro
fiel de batalhas silenciosas e aventuras intermináveis.
O nosso mundo mágico dos brinquedos Estrela ficava
nas Casas das Louças. Era ali que os olhos brilhavam. Ali moravam as novidades,
os bonequinhos, os soldadinhos, o Falcon, o Stratus, o eterno vai e volta do
bate-e-volta. Foi ali que meu pai comprou magia e levou para casa. E foi ali
que eu ganhei o meu tão sonhado Autorama Fitti Show. Eram muitos os brinquedos
desejados. Alguns vieram. Outros ficaram só na vontade — e ensinaram, sem
saber, que sonhar também faz parte do brincar.
Hoje tudo corre. Tudo pisca. Tudo passa rápido
demais. Mas aqueles brinquedos ficaram. Não nas caixas, nem nas estantes.
Ficaram na memória. Ficaram na alma. Porque a Estrela nunca vendeu apenas
produtos. Vendeu infância. E infância, quando é de verdade, não envelhece. Vira
saudade. Às vezes, vira eternidade.
A lista é longa e afetiva: Banco Imobiliário, Jogo
da Vida, Detetive, Genius, as Fofoletes guardadas com cuidado, Pula Pirata,
Pula Macaco, Cai Não Cai. Os carros Stratus, Pegasus, Colossus. O Fusca
bate-e-volta que chegou num Natal de 74 — primeiro polícia, depois ambulância.
O barulho rodando pela sala ainda mora no ouvido. Fragmentos de um tempo em que
brincar não era passatempo. Era, simplesmente, aprender a ser gente.




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