Antes de existir escolinha, peneira, cobrança ou
aquela obsessão por “virar jogador”, o futebol nascia onde a vida era simples.
Brotava nos campinhos de terra batida, nas ruas de chão irregular, nas quadras
abertas, em qualquer espaço onde coubesse uma bola — ou qualquer coisa que
lembrasse uma. A gente jogava por impulso, por alegria, por estar junto. E isso
era tudo.
Nos anos 70 e 80, parecia que a cidade inteira
tinha sido construída sobre campinhos. Bastava virar a esquina para ver a molecada
correndo atrás da “gorduchinha do capotão” ou da famosa bola “dente de leite”,
que fazia curvas dignas de Nelinho ou Éder cada vez que alguém arriscava um
chute. Sob o sol forte, a poeira subia como plateia, e qualquer tarde virava
espetáculo. Não existia estádio capaz de competir com a magia das peladas de
rua. Com duas pedras, dois chinelos ou dois tijolos, a trave estava pronta;
três passos para cada lado e o gol estava marcado. Par ou ímpar, escolhe esse,
escolhe aquele, quem sobrou espera. Com camisa, sem camisa, de conga, de
Kichute ou descalço — tanto fazia. O que importava era jogar.
A cidade respirava futebol. Não havia bairro sem
campinho, nem fim de tarde sem meninos cobertos de terra, rindo, discutindo
lateral e reinventando o mundo com uma bola nos pés. “Quem chutar pra longe vai
buscar!” “Para, para, deixa o carro passar!” E o jogo só terminava quando a
noite caía ou quando a mãe do dono da bola gritava lá de longe. Às vezes o
placar marcava 5 a 1, mas alguém decretava: “Quem fizer, ganha!” E pronto: era
lei. Bastava um gol — e ganhava mesmo.
No meio da pelada, voavam insultos que hoje
renderiam boletim de ocorrência, sindicância e muita choradeira. Naquela época,
eram apenas parte do ritual: “Gordo mole!” “Magrelo safado, toca a bola!” “Quatro-olhos
do caralho!” “Chuta, desgraça!”
E seguia o jogo. Ninguém brigava. Ninguém
chorava. Ninguém corria para contar pra mãe. A paz reinava, o riso era solto e
a bola continuava rolando. No final, joelhos ralados, dedos sem tampão,
cotovelos esfolados. Em casa, o terror: mertiolate ardendo como fogo de dragão.
“Sopra, sopra, sopra!” E no dia seguinte… lá estávamos nós outra vez, como se
nada tivesse acontecido.
Quer saber? Aquilo tudo era diversão verdadeira.
E, se viver aquilo era ser feliz… posso afirmar sem medo: eu fui feliz demais.
Atrás do Estádio Mozart Veloso do Carmo, onde
hoje passam os carros das autoescolas, existia um terrão enorme, vermelho, que
engolia nossos passos e devolvia sonhos. Onde hoje está a estação rodoviária,
havia outro campão de terra: a poeira subia feito torcida, e cada chute parecia
decisão.
Em frente ao Clube Campestre, bastava atravessar
a rua para começar outra disputa. No velho Parque Betel, onde hoje é o Bairro
Canaã, havia um campo desnivelado, cheio de barrancos e histórias — cada gol
valia por dois, só pela aventura de ficar em pé.
Atrás do Parque de Exposições, vários campinhos
surgiam como quem não queria nada. Na Vila Maria, atrás do Posto Horizonte,
outro campinho simples, mas disputado como clássico. E havia também os
improvisados: atrás do que hoje é a Faculdade UniBRAS, na antiga “vilinha do
matadouro”, bastava limpar o chão, juntar a turma e o jogo já estava rolando.
A cidade oferecia suas “arenas”: a grande quadra
do Módulo Esportivo; as quadras dos colégios — Colégio do Sol, Colégio Gigantão
e o campão ao lado, palco de tantas histórias; a quadra da Escola de
Enfermagem; a quadra do TG, onde a bola parecia viva.
No Clube dos Bancários e no enorme terreno em
frente ao Hexa (o antigo clube), era só chegar para começar outro racha. Onde
hoje está a CDL, o pessoal das máquinas de beneficiar arroz jogava as palhas —
a gente espalhava com os pés e, em minutos, criava mais um campinho que durava
enquanto o sol permitisse.
Até nos cantos mais improváveis havia futebol: no
Posto Décio, na descida para o Campestre, um campinho pequeno, tímido, mas onde
gastamos energia como se fosse um Maracanã. E, claro, o lendário campo do
Martins Borges, onde hoje está o Colégio Oscar Ribeiro — templo do futebol
amador, palco de pelejas que o tempo não ousa apagar.
A cidade era assim: um mapa de campinhos
improvisados, um estádio em cada esquina, um campeonato em cada tarde. E nós,
meninos de chuteira gasta e coração leve, seguimos carregando na memória tudo
aquilo que o tempo tirou do chão — mas jamais da alma.
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