Das
convocações para a Copa do Mundo. Minha primeira lista foi em 1978. E talvez
quem nasceu depois nunca entenda completamente o que aquilo representava para
uma geração inteira de meninos apaixonados por futebol.
A Copa
começava muito antes da bola rolar. Começava nas figurinhas difíceis de
encontrar. Nas tampinhas de refrigerante com o rosto do jogador. Nos debates
intermináveis sobre quem deveria ser titular. Na molecada decorando número,
posição, clube — e até o jeito do sujeito correr em campo, como se aquilo fosse
matéria de escola, e não houvesse prova mais prazerosa do que essa.
E eu estava
ali, completamente mergulhado naquele universo. Lembro daquela convocação como
quem abre uma velha caixa guardada no alto do armário, com cheiro de passado e
papel amarelado. Do meu Palmeiras estavam Leão e Jorge Mendonça — orgulho de
menino. Depois vinham Nelinho com aquela bomba na perna direita, Toninho Cerezo
elegante no meio, Zico genial, Rivelino eterno, Reinaldo, Roberto Dinamite. Não
eram apenas nomes. Eram heróis que habitavam nossas semanas, nossos domingos,
nossas conversas que atravessavam tardes inteiras sem pressa nenhuma de acabar.
"A
Seleção parecia nossa. Tinha cheiro de domingo no rádio. De arquibancada. De
bandeira no varal. De rua vazia em dia de jogo."
Não eram
apenas jogadores da Seleção. Eram personagens do nosso cotidiano. Todos jogavam
no Brasil. Todos faziam parte dos nossos domingos. A gente os via toda semana,
sabia os nomes dos estádios, reconhecia o uniforme, ouvia o narrador gritando
seus nomes no rádio — e aquele grito era quase familiar, quase de dentro de
casa. Sabíamos tudo de cor. Tudo. E sem internet. Sem Google. Sem aplicativo.
Era paixão mesmo.
* * *
Depois veio
1982… ah, 82. A Seleção mais bonita que meus olhos viram jogar. Ainda existe
uma dor silenciosa quando lembro daquela derrota — o tipo de frustração que não
passa com o tempo, que envelhece junto com a gente e ocupa um cantinho
permanente na memória. Mas ainda havia identificação. Falcão e Edinho atuavam
fora. Só. O restante pertencia ao futebol brasileiro, às nossas arquibancadas,
às nossas tardes.
Zico era a
referência do Flamengo. Sócrates, inteligência rara, era a alma do Corinthians.
Toninho Cerezo fazia do meio-campo do Atlético-MG um espetáculo de elegância. Éder do Galo não era só jogador…
era um canhão vestido de camisa amarela. Na Copa, bastava ele ajeitar a bola que o
goleiro já rezava antes do chute. Oscar comandava a defesa do São Paulo como um verdadeiro general —
firme, técnico e imponente. Ao seu lado, Luizinho, do Atlético Mineiro, jogava
com serenidade e elegância raras para um defensor, transmitindo calma até nos
momentos mais tensos do jogo. Júnior jogava no Flamengo com uma
naturalidade absurda, como quem tratava a bola com carinho, como quem não
queria machucar ninguém. Leandro parecia jogar sem esforço, tamanha a classe na
lateral direita.
E o mais
bonito de tudo é que a gente conhecia cada um deles intimamente, mesmo sem
nunca ter apertado suas mãos. Sabíamos o clube, o jeito de correr, a maneira de
comemorar, o canto da torcida, o narrador que gritava seus nomes no rádio. Eles
não eram apenas convocados da Seleção. Eram parte da nossa vida.
* * *
O tempo
passou. As Copas passaram também. Vieram outras listas, outros técnicos, outros
craques, outros fracassos. Tudo foi entrando naquele arquivo sentimental que
todo apaixonado por futebol carrega sem perceber — sem querer, mas sem
conseguir jogar fora. Mas em algum momento o encanto começou a escapar pelos
dedos, silencioso como areia.
Hoje se
aproxima mais uma convocação da Seleção… e bate uma sensação estranha: muitos
dos nomes já não significam quase nada para quem cresceu respirando futebol.
Não sabemos onde jogam, não acompanhamos suas histórias e aquela conexão
verdadeira com a camisa parece ter se perdido pelo caminho. E olha que eu ainda
gosto de futebol. Continuo gostando. Talvez seja o futebol moderno que tenha se
afastado demais da essência que um dia encantou tanta gente.
Os tempos
mudaram… Antes, a Seleção era formada por craques que viravam ídolos eternos. A
gente sabia a escalação inteira de cor, o clube de cada jogador, o número da
camisa e até o reserva do reserva. Existia identificação, memória, paixão.
Hoje, em
muitos casos, parece que o jogador precisa ser mais influencer do que boleiro.
Tem publi, pose, dancinha, corte de cabelo, ensaio fotográfico e marketing o
tempo todo… enquanto o futebol, que deveria ser o principal, vai ficando em
segundo plano.
Antes
colecionávamos figurinhas e discutíamos futebol na rua, no rádio e na mesa do
bar. Hoje mal conseguimos escalar a Seleção… e às vezes nem sabemos em que time
certos convocados jogam. Antes tínhamos jogadores. Agora temos celebridades com
chuteira.
Antes, a
Seleção Brasileira era continuação do nosso campeonato. Era extensão da nossa
rotina de domingo, do rádio ligado na cozinha, da calçada cheia de gente
comentando o lance. Hoje parece uma reunião anual de jogadores espalhados pelo
mundo — muitos que a gente mal viu jogar, mal sabe o clube, mal consegue
imaginar o gol na cabeça.
"Talvez
seja apenas o tempo fazendo seu trabalho. Talvez seja saudade. Porque o que eu
sinto falta mesmo não é só das antigas convocações."
É daquele
menino que sabia a lista inteira de cabeça. Que colava figurinha com a ponta da
língua, serinha. Que decorava posição, número e clube como se fosse uma
obrigação sagrada. Que acreditava, com toda a convicção da sua pouca idade, que
uma Copa do Mundo era a coisa mais importante do planeta.
Esse menino
foi embora junto com as convocações que paravam tardes inteiras. E as
notificações de celular, infelizmente, não têm como trazê-lo de volta.
1978: Goleiros: Leão (Palmeiras), Carlos (Ponte Preta), Waldir Peres (São Paulo). Laterais: Toninho (Flamengo), Nelinho (Cruzeiro), Edinho (Fluminense) e Rodrigues Neto (Botafogo). Zagueiros: Oscar (Ponte Preta), Amaral (Corinthians), Abel (Vasco), e Polozzi (Ponte Preta). Meio-campistas: Toninho Cerezo (Atlético-MG), Batista (Internacional), Zico (Flamengo), Rivelino (Fluminense), Chicão (São Paulo) e Jorge Mendonça (Palmeiras). Atacantes: Gil (Botafogo), Reinaldo (Atlético-MG), Dirceu (Vasco), Zé Sérgio (São Paulo) e Roberto Dinamite (Vasco).
1982: Goleiros: Waldir Peres (São Paulo) - Paulo Sérgio (Botafogo) - Carlos (Ponte Preta) - Laterais: Leandro (Flamengo), Edevaldo (Internacional), Júnior (Flamengo) e Pedrinho (Vasco) - Zagueiros: Oscar (São Paulo), Luizinho (Atlético-MG), Juninho (Ponte Preta) e Edinho (Udinese-ITA) - Meio-campistas: Toninho Cerezo (Atlético-MG), Falcão (Roma-ITA), Sócrates (Corinthians), Zico (Flamengo), Batista (Grêmio) e Renato (São Paulo) - Atacantes: Éder (Atlético-MG), Serginho (São Paulo), Roberto Dinamite (Vasco), Paulo Isidoro (Grêmio) e Dirceu (sem clube).


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