O tempo livre é algo que a gente
desaprende com o tempo. Quando éramos crianças, ele vinha fácil. Não precisava
explicar nem planejar. Uma tarde vazia já bastava. Sabíamos exatamente onde
morava a alegria. No intervalo da escola, no tempo que não tinha pressa nem
cobrança. A gente simplesmente vivia...
Na infância, até o “não fazer
nada” tinha sentido. Olhar formigas, inventar histórias, brincar sozinho… tudo
valia. Não havia culpa. O tempo livre era leve, aberto, suficiente. O quintal
não era só um pedaço do mundo — era o mundo inteiro. E a imaginação corria
solta, enquanto o relógio, coitado, mal entrava na brincadeira.
Depois, a gente cresce e começa a
se cobrar — e os outros cobram também, muitas vezes sem saber por quê.
Descansar vira preguiça. O fim de semana passa a ser medido pelo que foi feito,
não pelo que foi sentido. O tempo que não produz parece perdido. Ficamos sérios
demais, ocupados demais, importantes demais.
E, sem perceber, a gente passa
pela alegria e faz de conta que não viu — como quem cruza um velho amigo na rua
e desvia o olhar só para não ter que parar, não ter que conversar, não ter que
lembrar de quem já foi. A pressa vira desculpa, a rotina vira abrigo, e a gente
segue adiante, como se aquele encontro não importasse. Mas importa. Porque, no
fundo, é um pedaço da gente que ficou ali, esperando um pouco de atenção —
simples, sincera, sem hora marcada.
Mas o tempo livre não sumiu. Ele
ainda está ali — nos intervalos, nas pausas, nos silêncios. Numa tarde chuvosa,
numa caminhada sem rumo, numa conversa sem pressa. Ele continua chamando. A
diferença é que a gente nem sempre aceita. Talvez por medo de encontrar, ali
dentro, a parte da gente que ainda sabe brincar.

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