Quem viveu o fim dos anos 70 e o começo dos anos 80 provavelmente se lembra de uma vida mais simples. Não porque tudo fosse melhor, mas porque o tempo parecia andar em outro ritmo.

Naquela época, esperar fazia parte da rotina. Esperávamos cartas chegarem pelo correio. Líamos e relíamos cada linha, depois sentávamos para escrever a resposta e voltávamos a esperar. Havia expectativa e um valor especial em cada mensagem recebida.

Esperávamos a revelação das fotografias para descobrir como tinham ficado. Cada foto era única. Não existiam dezenas de tentativas nem filtros para corrigir imperfeições. O encanto estava justamente na surpresa.

Esperávamos a música preferida tocar no rádio. Rebobinar uma fita cassete era algo normal. Nada acontecia na velocidade de um clique. Sem perceber, aprendíamos a exercitar a paciência, a tolerância e a perseverança.

Também usávamos muito mais a memória. Decorávamos números de telefone. Lembrávamos aniversários sem a ajuda de aplicativos. Sabíamos chegar aos lugares sem GPS. Hoje, boa parte dessas tarefas foi terceirizada para o celular.

As refeições também eram diferentes. As famílias se reuniam à mesa e conversavam. Não havia telas disputando atenção. O almoço era um momento para estar com quem estava presente, e não com quem estava do outro lado de uma mensagem.

Havia menos distrações e mais tempo para pensar. A curiosidade era estimulada. A criatividade aparecia nas brincadeiras, nas conversas e até nos momentos de tédio. Afinal, quando não existia uma tela para preencher cada segundo livre, a imaginação fazia o trabalho.

O próprio dia a dia exigia mais movimento. Para trocar de canal na televisão era preciso levantar e girar o seletor. O vidro do carro era movido pela manivela. Entrávamos e saíamos de casa várias vezes ao longo do dia. Sem perceber, caminhávamos mais, nos movimentávamos mais e dependíamos menos da comodidade.

Claro que a tecnologia trouxe facilidades extraordinárias e melhorou a vida em muitos aspectos. O problema não é a tecnologia. A reflexão está em quanto passamos a depender dela para tarefas que antes fazíamos naturalmente.

Talvez não seja uma questão de voltar ao passado, mas de recuperar alguns hábitos que ficaram pelo caminho. Conversar mais olhando nos olhos. Passar algum tempo longe das telas. Exercitar a memória. Ter um pouco mais de paciência.

Porque, às vezes, a vida não precisa ser mais rápida.

Talvez ela precise apenas ser mais vivida.