Há
fachadas que resistem ao tempo. Não são apenas paredes, portas ou vitrines. São
pedaços da nossa história. Lugares que guardam lembranças, vozes, cheiros e
pessoas que fizeram parte da infância de muita gente. Sempre existe um armazém,
uma venda ou um comércio antigo que, em algum momento, ajudou a escrever um
capítulo da nossa vida.
Para
mim, esse lugar tem nome: Armazém Leão. Ali está ele, há mais de cinquenta
anos, na Rua Augusta Bastos. Um verdadeiro guardião da memória de Rio Verde.
Morei
na Rua Afonso Ferreira, no início dos anos 70, bem pertinho dali. Naquele
tempo, a cidade seguia um ritmo mais manso. As ruas ainda eram de terra
vermelha e, quando o asfalto começou a chegar, lembro-me das enormes manilhas
de concreto espalhadas pelo bairro. As máquinas abriam valas para instalar a
rede de esgoto e, para nós, meninos, aquilo não era uma obra: era um parque de
aventuras.
A
infância acontecia na rua, sem relógio e sem pressa de acabar. As mães, da
porta de casa, quase perdiam o juízo de tanta preocupação. E, como em toda boa
vizinhança daqueles tempos, sempre surgia alguém dizendo que uma criança havia
sido soterrada pelas máquinas. Era mais lenda do que verdade, mas bastava para
acelerar o coração das mães por alguns minutos... até que, no dia seguinte,
tudo recomeçasse, como se a infância fosse eterna.
Descendo
a Augusta Bastos, a memória desenha um mapa que o tempo não conseguiu apagar.
Na esquina com a Rua Afonso Ferreira estava a Bilharbol. Do outro lado, a
Sapataria Silva. Mais adiante, o bar do Eurípedes. Em outro cômodo funcionou
uma venda, depois uma marcenaria e tantos outros pequenos comércios que o tempo
levou, deixando apenas lembranças.
No
meio do quarteirão, como uma referência para quem passava pela rua, estava o Armazém
Leão. Mais do que um simples comércio, era um daqueles lugares que se
misturavam à rotina das pessoas e guardavam histórias em cada canto. Seu
proprietário, Odilon Leão Cruvinel, nascido em janeiro de 1951,
construiu ali uma trajetória marcada pelo trabalho e pela convivência com a
comunidade. Ao lado da esposa Ilma Ferreira, formou sua família, teve os filhos
Romero e Renata e, anos depois, recebeu os netos Larissa e Pedro, que chegaram
para acrescentar novos capítulos a essa história escrita entre prateleiras,
encontros e muitas lembranças.
A
história do armazém começou em 1973. Odilon tinha apenas 22 anos quando abriu
sua primeira venda na Rua Laudemiro Bueno, próximo ao saudoso "Zé da
Venda", outro símbolo do comércio rio-verdense. Permaneceu ali por cerca
de oito meses. Depois mudou-se para a Augusta Bastos. E nunca mais saiu.
Quem
entra hoje no Armazém Leão faz uma pequena viagem no tempo. O balcão continua o
mesmo. As prateleiras também. Parecem conservar, entre as tábuas antigas, as
conversas, os risos e as histórias de milhares de fregueses que passaram por
ali.
Naquele
tempo, supermercado era coisa distante para muita gente. A confiança morava na
caderneta. Era nela que estavam escritos os nomes das famílias, as compras do
mês e a palavra que hoje parece rara: confiança.
No armazém havia de tudo. Das necessidades do
dia a dia às pequenas alegrias da infância. Entre as prateleiras, misturavam-se
mantimentos, produtos simples e aqueles pequenos tesouros que faziam os olhos
das crianças brilharem: balinhas, bombinhas, bolinhas de gude e doces em lata.
Ainda me vejo menino, com meus seis ou sete
anos, atravessando a rua quase sem movimento para chegar até o Armazém Leão.
Ia em busca de pequenas delícias que, para uma criança, tinham o tamanho de
grandes felicidades: um pacote de Mandiopã e aquele doce cristalizado de caju,
guardado em uma caixinha, com sabor de infância e capaz de despertar memórias
que o tempo nunca conseguiu apagar.
Nas
prateleiras, conviviam, a salsicha em lata, a sardinha, o Kitut e uma
infinidade de produtos que só existiam naqueles antigos armazéns — lugares onde
cada compra vinha acompanhada de uma conversa, um sorriso e uma lembrança para
guardar.
E
aquele cheiro inconfundível de armazém... mistura de café, fumo, querosene,
sabão, madeira e produtos empilhados. Um perfume que o tempo não consegue
apagar da memória. Os armazéns eram muito mais que estabelecimentos comerciais.
Eram pontos de encontro.
Os
balcões de madeira aproximavam as pessoas. As balanças de ferro pesavam muito
mais que mercadorias; pesavam amizades de uma vida inteira. Nos tamboretes, os
vizinhos colocavam a conversa em dia. Ali se discutia futebol, política,
lavoura, chuva, casamento, filhos e sonhos.
Com
o passar dos anos, aqueles bancos foram ficando mais silenciosos. Aos poucos,
um a um, os antigos frequentadores foram partindo, deixando para trás histórias,
risadas e lembranças das muitas conversas ali compartilhadas. Mas a vida sempre
encontra um jeito de continuar: sempre haverá alguém para ocupar aquele lugar,
sentar-se por alguns minutos e trocar dois dedos de prosa, mantendo viva a
tradição simples e bonita dos velhos armazéns.
Como
o próprio Odilon costuma dizer, muitos companheiros de longa data já se foram.
Os vizinhos mudaram, os fregueses envelheceram, a feira de domingo, que durante
tantos anos fez parte da paisagem daquela rua, desapareceu. As fachadas
mudaram. As calçadas mudaram. A cidade cresceu..., mas Odilon permaneceu.
Hoje,
aos 75 anos, continua sentado atrás do mesmo balcão, recebendo cada cliente com
a simplicidade de sempre. A caderneta praticamente desapareceu, substituída por
cartões, PIX e celulares. Mas o jeito de atender continua o mesmo de meio
século atrás.
Poucos
lugares conseguem vencer o tempo. O Armazém Leão venceu. Talvez porque ali não
se vendam apenas produtos. Ali ainda se vendem lembranças.
E,
toda vez que passo por aquela porta, sinto que uma parte da minha infância
continua esperando por mim, exatamente onde a deixei.
O
tempo passou. Nós crescemos. As ruas ganharam asfalto. As crianças trocaram as
bolinhas de gude pelas telas dos celulares.
Mas,
quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir uma velha cantiga que parece
acompanhar o movimento da vida: "Gira baleiro, gira... faz a bala
rodar..." E, enquanto o baleiro gira, giram também as lembranças. Porque
existem lugares que o tempo envelhece. E existem outros que a saudade
transforma em eternos.





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