Nasci em São Paulo. Mas foi em Rio Verde que aprendi a sonhar.
Quando a memória decide abrir suas gavetas, ela não traz apenas lembranças. Traz cheiros, sons, cores, silêncios e pequenos silêncios que o tempo nunca conseguiu apagar. Há dias em que fecho os olhos e volto a ser aquele menino que caminhava devagar pelas ruas de uma cidade que parecia caber inteira dentro do coração.
Rio Verde era pequena. Não apenas no tamanho. Era pequena na pressa, nos costumes e nas distâncias. As pessoas sabiam o nome umas das outras. As portas permaneciam abertas. As crianças pertenciam à rua, não às telas. O relógio parecia andar descalço.
Na infância, aprendi que sonhar era um jeito de possuir aquilo que ainda não existia. Eu imaginava muito. Mais do que brincava. Mais do que tinha. A imaginação era o brinquedo que nunca faltava.
Ela transformava uma calçada em estrada, um graveto em espada, uma caixa de papelão em castelo e uma rua silenciosa em um mundo inteiro.
Foi ali que descobri, sem conhecer a palavra, o significado da imaginação. Imaginação é o lugar onde a realidade pede licença para entrar. É a capacidade de construir pontes entre aquilo que somos e aquilo que desejamos ser. É enxergar com os olhos da alma antes que os olhos do corpo possam confirmar.
Naqueles dias, eu caminhava muito. Passava em frente ao Cine Bagdah. Para um menino, aquele cinema era um templo. Os cartazes mudavam de tempos em tempos e anunciavam mundos que eu jamais havia visitado. Um deles nunca saiu da minha memória.
Emmanuelle. Eu parava diante daquele cartaz. Olhava demoradamente. Não compreendia tudo. Mas compreendia o suficiente para saber que existia ali um mistério reservado aos adultos. Desejei entrar... não deixaram... Não pude. A idade não permitia. Segui meu caminho... A imaginação sempre foi melhor diretora do que qualquer câmera. Foi naquele instante que aprendi outra palavra. Desejo.
Desejo não é possuir. Desejo é caminhar em direção ao que ainda não nos pertence. É aceitar que algumas portas permanecem fechadas até que o tempo encontre a chave. É entender que esperar também faz parte da felicidade.
Naquela época, nossos limites eram pequenos. A cidade terminava logo ali. Depois começavam os pastos, as chácaras e o horizonte. A escola ficava a poucos quarteirões.
Íamos a pé. A merenda tinha gosto de casa. Não era apenas comida. Era encontro. Era conversa. Era risada. Era o intervalo onde todos éramos iguais. Depois da aula, a mochila era lançada sobre a cama e o uniforme parecia desaparecer junto com qualquer obrigação.
A rua nos chamava pelo nome. Os campinhos de futebol nasciam onde hoje existem estacionamentos, prédios e avenidas.
O gol era feito com dois chinelos. O juiz era a consciência. A torcida era o vento. E o jogo só terminava quando alguém gritava da janela: — Menino... vem tomar banho!
Nunca existiu estádio mais importante do que aqueles pedaços de terra batida. Nunca houve gramado mais bonito do que a poeira vermelha que subia depois de uma dividida.
Ali aprendíamos amizade, derrota, vitória e respeito sem perceber que aquilo também era escola. O tempo passou. A cidade cresceu. As ruas foram asfaltadas.
Os terrenos baldios desapareceram. Vieram os edifícios. Os semáforos. Os condomínios. Os muros altos. As câmeras. As grades. A cidade envelheceu. E, em algum momento, perdeu um pouco da delicadeza das cidades pequenas.
Ainda caminho pelas mesmas ruas. Mas elas já não caminham comigo. A menina da janela... Já não está mais lá. Cresceu... ela partiu, não mora mais lá.
Talvez apenas tenha aprendido que o mundo exige cautela. A janela foi fechada. E trancada com a tramela. O sorriso que iluminava a calçada ficou guardado em algum lugar onde a memória ainda consegue enxergar.
O rego d'água... Ah... O rego d'água. Quantos barquinhos de papel navegaram por ele durante as chuvas de verão? Quantas folhas seguiram correnteza abaixo como se fossem grandes embarcações?
Hoje o concreto o cobriu. Silenciou sua música. Escondeu a água. Como se esconder a água fosse também esconder a infância. E aquela árvore antiga...
Tão grande que parecia conversar com o céu. Quantas sombras ela ofereceu? Quantos passarinhos encontrou abrigo em seus galhos?
Alguém a cortou. Talvez por necessidade. Talvez por progresso. Mas nenhum motosserra consegue derrubar uma árvore que continua de pé dentro da lembrança de quem a amou. A cidade mudou. Eu também.
Mas há mudanças que o coração nunca aprende a aceitar. Ainda hoje, sem perceber, meus ouvidos procuram a voz do vendedor que cruzava as ruas anunciando suas delícias: "Olha o quebra-queixo... picolé... juju...”
Ainda espero ouvir o apito distante de um trem que nem passava por ali. Ainda olho para algumas esquinas como quem espera encontrar um amigo de infância dobrando a rua. A verdade é que nunca deixamos completamente os lugares onde fomos felizes.
Eles continuam morando em nós. Com seus cheiros. Com suas vozes. Com seus silêncios. A infância não acaba. Ela apenas aprende a falar baixinho.
Hoje compreendo que a imaginação salvou muitos dos meus dias. Foi ela quem coloriu aquilo que me faltava. Foi ela quem transformou limites em horizontes.
E o desejo... Ah, o desejo... O desejo foi o motor invisível que me fez continuar caminhando. Sem ele, a vida seria apenas repetição. Com ele, cada esquina escondia uma promessa. Talvez seja por isso que sinto tanta saudade daquela Rio Verde. Não porque ela fosse perfeita. Ela não era. Mas porque havia espaço para imaginar.
Havia tempo para desejar. Havia uma cidade inteira ensinando, sem saber, que a felicidade nunca esteve nas coisas grandes. Ela morava na merenda dividida. No campinho improvisado. No cartaz do Cine Bagdah. Na menina da janela. Na árvore antiga.
Na água correndo livre. Na rua onde todos se conheciam. Hoje, quando volto a esses lugares, encontro apenas fragmentos. A cidade mudou de roupa.
Mas eu continuo carregando, no bolso da memória, aquele menino que caminhava devagar, sonhava alto e acreditava que o mundo inteiro cabia na esquina da próxima rua. Talvez a vida seja exatamente isso. Uma longa caminhada entre a imaginação e o desejo.
A imaginação nos ensina a criar mundos. O desejo nos dá coragem para persegui-los. E a saudade... A saudade é Deus nos permitindo visitar, por alguns instantes, a cidade que o tempo levou, mas que o coração jamais deixou partir.

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