Recentemente,
visitei uma feira de carros antigos e utensílios domésticos de outros tempos.
Dizem que era uma exposição. Discordo. Era uma máquina do tempo estacionada bem
diante dos nossos olhos.
Bastava
dar os primeiros passos para que a música que saía dos alto-falantes deixasse
de ser apenas melodia. Ela tinha o estranho poder de abrir portas que a memória
insistia em manter fechadas. Cada canção encontrava uma lembrança adormecida.
Cada objeto parecia sussurrar: "Você já viveu comigo."
A
música ecoava pelos alto-falantes e, sem pedir licença, nos levava de volta no
tempo. No centro da praça, a geração da dança dos passinhos revivia uma época
em que bastava uma batida para reunir amigos e esquecer as horas. Muitos dos
que passavam por ali observavam a cena sem imaginar o que ela representava.
Para eles, era apenas uma apresentação. Para nós, era a juventude reaparecendo
por alguns minutos. E, enquanto a vida seguia no seu eterno ir e vir, o refrão
tomava conta do ambiente:
"Touch
by Touch, you're my all time lover..."Bastaram aqueles primeiros acordes
para que o passado encontrasse, mais uma vez, o caminho de casa. "Touch
by Touch, you're my all time lover." "Toque por toque, você é
meu amor de todos os tempos."
O
mais curioso era observar as pessoas. Havia quem passasse apressado, olhasse um
objeto e segue adiante sem entender o que ele representava. Para muitos jovens,
eram apenas velharias. Para nós, eram capítulos inteiros da vida.
Os
carros, as lambretas, as motocicletas e os caminhões não eram peças de coleção
quando éramos crianças. Eram o trânsito da nossa infância. Eram os veículos que
cruzavam as ruas de terra, estacionavam na porta de casa e levavam famílias
inteiras para passear aos domingos. Naquela época, os automóveis tinham
personalidade. Eram verdes, amarelos, azuis, vermelhos, beges, de duas cores...
As ruas pareciam um catálogo de tintas. Hoje, basta olhar um estacionamento
para perceber que o mundo resolveu vestir cinza, prata, branco e preto.
Entre
uma barraca e outra, surgiam os utensílios que fizeram parte da cozinha, da
sala e do quintal. Um simples orelhão de ficha... Quantas histórias cabiam ali!
Hoje, muitos sequer saberiam por onde começar uma ligação.
Ali
também estava um mimeógrafo. Quantas gerações conheceram aquele cheiro
inconfundível do álcool invadindo a sala de aula! O professor girava a
manivela, e nós recebíamos as folhas ainda úmidas. Antes mesmo de ler a
atividade, já respirávamos aquele perfume que anunciava novidade.
Vi
também uma enceradeira. Não era apenas uma máquina; era quase um ritual
doméstico. Ela fazia brilhar o chão encerado com Parquetina, enquanto a casa
inteira ganhava aquele cheiro de limpeza de sábado. E quem é mais antigo ainda
sabe que, antes dela, existia a boa e velha escovação: trabalho para braços
fortes e muita paciência.
Numa
outra banca, descansava um aparelho 3 em 1. Ao lado, discos de vinil. Mais
adiante, um Motorádio de OM e AM. E, de repente, os grandes rádios de madeira,
de cantos arredondados, levaram-me de volta às manhãs da infância.
—
Quem é? É o Zé Béttio!
—
Dona de casa, tem água aí? Joga água na turma!
—
Olha a hora!
—
Acorda, gente!
A
voz saía do rádio e tomava conta da casa inteira. Depois vieram os
rádios-relógio, modernos para a época. Hoje, eles também já pertencem ao museu
das lembranças.
Em
outra barraca, um baleiro, uma balança Filizola vermelha e um velho balcão de
armazém pareciam ainda esperar pelos fregueses. Sobre o balcão, a inseparável
concha de ferro media arroz, açúcar e feijão. Naquele tempo, não havia
embalagens individuais nem códigos de barras. O cliente pedia um quilo, e o
comerciante, quase sempre conhecendo cada freguês pelo nome, enchia o pacote de
papel pardo com a precisão de quem fazia aquilo havia uma vida inteira.
A
balança Filizola, com seu ponteiro dançando até encontrar o peso exato, parecia
dar a palavra final em cada compra. Era um comércio em que não se pesavam
apenas mantimentos; pesavam-se a confiança, a amizade e o tempo vivido em
comunidade.
Vi
um fogão de duas cores — azul e branco, vermelho e branco — e sorri sozinho. Na
mesa, o inseparável copo americano. Ao lado, a famosa jarra de abacaxi. Sobre a
geladeira, um pinguim orgulhoso fazia guarda. Dentro dela, quase sempre havia
uma garrafa plástica verde ou vermelha. E ecoava a voz da mãe:
—
Bebe na boca, não!
Na
porta, o velho porta-leite esperava o leiteiro. Leite A, B ou C. Às vezes mais
aguado, às vezes mais gordo. Mas sempre com gosto de infância.
Lembrei-me
também do galo do tempo, que mudava de cor conforme o clima, como se
conversasse com as nuvens. Do quintal com piso de caquinhos. Debaixo do relógio
d'água, uma lata cheia de bolinhas de gude coloridas esperava a molecada voltar
da escola.
Na
cozinha, as latas enfileiradas guardavam arroz, açúcar, café e feijão. Cada uma
de uma cor, como se a organização também pudesse ser bonita.
E
então apareceu ela: a máquina de costura de pedal. Quantas crianças descobriram
ali o primeiro volante da vida! Enquanto a costureira transformava retalhos em
roupas, nós pedalávamos escondidos, imaginando dirigir caminhões, ônibus ou
carros de corrida. A agulha subia e descia costurando tecidos. A imaginação
costurava sonhos.
No
fim do corredor, um telefone de disco. Muitos ainda tinham um cadeado para
impedir ligações demoradas. Ao lado, repousava a pesada lista telefônica,
aquele Google impresso que ocupava espaço na estante e exigia paciência
para encontrar um número.
Saí
daquela feira com a certeza de que não fui ver objetos antigos. Fui reencontrar
pessoas. Cada peça carregava a voz dos meus pais, dos meus avós, dos vizinhos,
dos amigos de infância. Carregava o cheiro da casa, o barulho da rua, as
brincadeiras sem pressa, o rádio ligado o dia inteiro e uma época em que as
coisas talvez não fossem melhores, mas pareciam durar mais.
Percebi,
então, que a saudade não mora nos carros, nos rádios, nas máquinas ou nos
telefones. Ela mora em nós. Os objetos apenas sabem o caminho para encontrá-la.


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