Há lembranças que não envelhecem.

Ficam guardadas em algum lugar secreto da memória, esperando apenas uma palavra, uma música, um cheiro, uma fotografia ou uma velha canção para abrir a porta. E, quando a porta se abre, não precisamos de máquina do tempo, passagem de avião ou qualquer outra coisa: de repente, estamos lá outra vez.

Não em 2026.

Mas em 1976.

Eu ainda era menino.

Naquele tempo, eu estava aprendendo a desenhar o mundo. E o mundo era bem diferente daquele que conhecemos hoje. Era menor, mais simples, feito de lápis apontado, borracha, caderno de caligrafia e linhas pontilhadas que pareciam indicar o caminho que a mão deveria seguir.

Eu tinha nas mãos a Cartilha Alegria do Saber. Antes de aprender a escrever histórias, eu aprendia a escrever as primeiras palavras:

Ma, Me, Mi, Mo, Mu...

Sa, Se, Si, So, Su...

Ca, Co, Cu...

Eu traçava uma linha. Errava. Apagava. Tentava novamente. Era assim que se aprendia. Sem pressa. Sem tela. Sem teclado. Sem corretor automático. A palavra precisava nascer da ponta do lápis. E, entre uma sílaba e outra, surgiam Baio e Cacá.

O Cuco bicou o Baio.

— Eia, Baio! Eia, Baio!

Cacá caiu.

— Ui, ui! Eu caí!

Hoje, talvez sejam apenas frases de uma antiga cartilha. Para aquele menino, não. Aquilo era aventura. Era literatura. Era cinema sem tela. Era imaginação. Porque criança dos anos 70 não precisava de muito para inventar um universo inteiro. Bastava uma rua, uma bicicleta, uma bola, um pedaço de madeira, uma lata, um barbante e uma quantidade infinita de imaginação.

E havia a rua. A rua ainda não conhecia o asfalto. Era cascalho, terra e aquela vermelhidão que só quem cresceu por essas bandas sabe reconhecer. Quando o vento soprava, levantava uma poeira fina que invadia os cabelos, as roupas, as casas e, sem que soubéssemos, também as lembranças.

Quando o vento apertava, a rua virava sertão.

E nós corríamos. Corríamos sem medo de sujar os pés.

Naquele tempo, criança suja era criança que tinha brincado.

Hoje talvez chamassem de imprudência.

Naquele tempo, chamávamos simplesmente de infância.

E havia o rádio. Ah, o rádio!

Ele não era apenas um aparelho sobre algum móvel da casa. Fazia parte da casa. Tocava música, anunciava notícias, contava histórias e parecia conversar conosco.

Depois veio a televisão. Poucos canais. Imagem que às vezes tremia. Antena que precisava ser ajustada.

E alguém gritava:

— Está bom assim?

Lá de fora vinha a resposta:

— Mais para a direita!

— Agora!

E todo mundo corria para a sala. Assistir televisão era acontecimento. Não havia streaming. Não havia centenas de canais. Não havia botão para voltar.

Se perdesse, perdeu. Talvez por isso prestássemos mais atenção.

O mundo cabia inteiro numa tarde. Cabia numa pipa subindo no céu, numa partida de futebol na rua, numa bicicleta, numa brincadeira de pega-pega, numa bolinha de gude, num esconde-esconde.

E cabia também em uma cantiga: “Cai, cai balão... cai aqui na minha mão...”

O céu parecia mais perto.

Talvez fosse mesmo. Ou talvez fosse apenas o nosso olhar de criança.

Havia também uma menina. Aquela menina que caminhava ao lado.

Na infância, a gente ainda não sabia explicar direito o que significava gostar de alguém. Apenas caminhava. Às vezes perto. Às vezes de mãos dadas.

E havia alguma coisa bonita quando aquela pequena mão encontrava a nossa.

Pega na minha mão... Talvez tenha sido uma das primeiras vezes em que descobrimos que o coração também sabia escrever.

Depois vinha o pião. Roda pião, roda na minha mão...

E o baleiro:

“Roda, gira, gira... roda, roda, roda, baleiro... atenção! Quando o baleiro parar, põe a mão!”

E nós colocávamos.

A gente rodava.

Rodava o pião.

Rodava o baleiro.

Rodava a infância.

Sem saber que, enquanto brincávamos, o tempo também estava girando.

E o tempo não pedia licença.

Apenas passava.

Vieram os anos 80.

Vieram os discos, as fitas cassete, o walkman, as revistas, as calças jeans, as jaquetas, os cabelos compridos e aqueles sonhos adolescentes que pareciam grandes demais para caber dentro da gente.

Vieram as músicas. A-ha, Simple Minds, Duran Duran, Cyndi Lauper, Air Supply... E tantas outras canções que bastam os primeiros acordes para fazer uma porta se abrir dentro da memória.

Os anos 80 tinham uma coisa bonita: a gente acreditava no futuro.

E o futuro parecia tão distante... Até que chegou 1986. Dezoito anos. Maioridade. Aquele número mágico que parecia dividir a vida em duas partes: antes dos dezoito e depois dos dezoito.

Eu havia esperado tanto por aquele momento que, quando ele chegou, parecia que o mundo inteiro havia aberto suas portas.

Agora eu podia.

Podia decidir.

Podia amar.

Podia escolher.

Podia enfrentar o mundo.

Pelo menos era isso que eu imaginava.

Até Emmanuelle entrou nessa história.

Havia a curiosidade dos dezoito anos, os cabelos longos, os sonhos compridos e aquela sensação deliciosa de que a vida começava justamente naquele momento. Mas a vida, às vezes, gosta de brincar conosco.

Quando finalmente chegou à maioridade, Emmanuelle já não estava mais em cartaz. E talvez aquela pequena frustração tenha sido uma das primeiras lições sobre o tempo: a gente espera tanto por algumas coisas que, quando finalmente podemos alcançá-las, elas já passaram.

Vieram as cartas. Os cartões. Os bilhetes escritos à mão. Não havia mensagens instantâneas. Não havia “visualizado”. Se alguém queria dizer que amava, precisava escrever. E escrever era um ato de coragem. Podia apagar. Podia rasgar. Podia começar novamente. Mas, depois de entregue, não havia botão para desfazer.

E eu escrevia. “Custe o que custar, o seu amor eu hei de conquistar.” E conquistei. Ou talvez tenha sido conquistado. Porque o amor nunca é exatamente uma conquista. É um encontro. Alguns encontros permanecem por muitos anos. Outros duram apenas uma estação. Alguns terminam no final do verão. E passam. Como passa tudo.

Passaram os cabelos longos.

Passaram as músicas.

Passaram as fitas cassete.

Passaram os discos.

Passaram as tardes de futebol na rua.

Passaram as brincadeiras.

Passaram as cartas.

Passaram alguns amores.

Passaram os dezoito anos.

Passaram os vinte.

Os trinta.

Os quarenta.

E, quando percebemos... cinco décadas se foram.

Cinquenta anos desde aquele menino que segurava um lápis e tentava acompanhar cuidadosamente as linhas pontilhadas.

Cinquenta anos desde: Ma, Me, Mi, Mo, Mu... Desde: Sa, Se, Si, So, Su...

Desde Baio e Cacá.

Desde o: “Ui, ui! Eu caí!”

Cinquenta anos desde a rua de terra vermelha. 

Desde a poeira levantada pelo vento.

Desde o pião.

Desde o baleiro.

Desde a menina.

Desde os primeiros sonhos.

E é curioso... Hoje eu sei escrever. Mas talvez tenha sido naquela cartilha que comecei a aprender aquilo que nenhuma escola ensina: a vida é feita de capítulos.

Alguns felizes.

Alguns doloridos.

Alguns que gostaríamos de reler. Outros que preferimos deixar fechados. Mas todos são nossos. E talvez seja por isso que, quando volto à memória, não sinto vontade de mudar nada.

Nem os erros.

Nem os amores que terminaram.

Nem aquilo que não aconteceu.

Porque tudo isso fez parte do menino que fui. E do homem que me tornei. Hoje, quando escuto uma música dos anos 70 ou 80, não ouço apenas uma canção.

Ouço uma rua.

Uma bicicleta.

Uma voz.

Uma risada.

Um rádio ligado.

Uma televisão de tubo.

Uma fita rebobinando.

Um disco girando.

Um coração adolescente batendo mais depressa. Ouço o tempo. E percebo que a memória é uma espécie de máquina do tempo que não precisa de combustível. Basta fechar os olhos.

E lá estamos nós novamente.

Meninos.

Sem cabelos brancos.

Sem preocupações.

Sem boletos.

Sem pressa.

Sem saber que, um dia, sentiríamos saudade justamente daquela vida simples que, enquanto vivíamos, parecia tão comum. Talvez essa seja uma das maiores ironias da existência: quando somos crianças, queremos crescer.

Quando crescemos, queremos voltar. Mas não voltamos. Podemos apenas visitar. E eu visito... 

De vez em quando, abro a porta da memória e encontro aquele menino.

Ele está lá.

Sentado.

A Cartilha Alegria do Saber sobre a mesa.

O lápis na mão.

A borracha ao lado.

Concentrado nas linhas pontilhadas.

Ele ainda não sabe dos anos que virão.

Não sabe dos amores.

Não sabe das perdas.

Não sabe das conquistas.

Não sabe dos cabelos brancos.

Não sabe que um dia terá saudade daquele exato momento.

Ele apenas escreve.

Ma, Me, Mi, Mo, Mu...

E eu fico olhando. Talvez com vontade de dizer alguma coisa.

Talvez apenas de abraçá-lo. Mas não digo. Porque algumas lembranças não precisam de palavras. Apenas de silêncio.

Então ele levanta os olhos. Sorri. E volta para a cartilha. Enquanto, do lado de fora, o vento passa pela rua de terra vermelha.

A poeira sobe.

O mundo continua.

O pião gira.

O baleiro roda.

A menina segura minha mão.

O rádio toca uma música.

E o tempo... Ah, o tempo... passa.

Passa o tempo.

Passa a vida.

Passam os anos.

Passam cinco décadas.

E nós seguimos. Carregando conosco aquilo que o tempo nunca conseguiu roubar: a memória de quem fomos. Porque, no fundo, talvez a infância não seja um tempo que ficou para trás.

Talvez ela seja uma pequena casa dentro de nós. Uma casa onde ainda mora aquele menino. E enquanto houver memória... a porta continuará aberta.

Passou... Passa... Passará... Mas aquele menino de 1976... esse ainda está aqui.